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    mata atlântica

    Ventos desmataram área equivalente a 700 campos de futebol em SP em 2016

    MARA GAMA
    COLUNISTA DA FOLHA

    29/05/2017 02h00

    Perdas consideráveis da cobertura florestal colocaram o Estado de São Paulo novamente na lista do desmatamento da mata atlântica no último ano.

    Foram 698 hectares desmatados entre 2015 e 2016, 15 vezes o desmatamento verificado entre 2014 e 2015, que atingiu 45 hectares. Um hectare equivale a 10.000 m², um pouco mais do que a área de um campo de futebol.

    O Estado vinha reduzindo a área desflorestada desde 2010 e, em 2013, tinha atingido o "grau zero", que é atribuído quando há perda de menos de 100 hectares (1 km²) de mata nativa.

    Mata Atlântica

    Os dados fazem parte do mais recente Atlas da Mata Atlântica, levantamento que cobre todo o imenso bioma, produzido pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

    Criado em 1985, o monitoramento começou com balanços a cada cinco anos e recentemente passou a ter atualizações anuais, com publicação de resultados em maio.

    Segundo o coordenador técnico do Inpe Flavio Ponzoni, especialista em vegetação, a maior parte do desmatamento no Estado foi causada por ventos muito fortes ocorridos em junho de 2016.

    Reprodução/Google
    Imagem feita em 2015 de área de mata em São Roque atingida por tempestade em junho de 2016
    Imagem feita em 2015 de área de mata em São Roque atingida por tempestade em junho de 2016

    O município que mais perdeu área de cobertura nativa foi São Roque, com decréscimo de 322 hectares. Na sequência vêm Mairinque, com 134 hectares, Atibaia, com 107 hectares, e Embu-Guaçu, com 55 hectares.

    Descontado o fenômeno natural, o desmatamento causado pela ação humana teria sido de 80 hectares, o que manteria o Estado fora da lista de desmatadores.

    Os ventos causaram estragos também nas áreas urbanas de Jarinu, Jundiaí e Vargem Grande Paulista nos dias 5 e 6 de junho de 2016, provocando quedas de árvores e postes, destelhamentos de edificações, tombamento de veículos e ao menos uma morte (em São Roque).

    Ponzoni diz que é possível ver as "cicatrizes" do vendaval na vegetação nativa nas imagens de satélite tomadas nos dias seguintes ao evento climático.

    Reprodução/Google
    Imagem da mesma área feita em meados de julho de 2016, pouco mais de um mês após a tempestade
    Imagem da mesma área feita em meados de julho de 2016, pouco mais de um mês após a tempestade

    Laercio Namikawa, que atua na área de detecção de danos do Inpe, diz que não é possível afirmar que houve um tornado, embora existam indícios de um percurso de destruição.

    Marcia Hirota, diretora-executiva do SOS Mata Atlântica, sobrevoou a área na última quarta-feira (24), quase um ano depois do vendaval, e diz que já é possível ver alguma recuperação nos locais atingidos. "Precisamos garantir que essas áreas sejam regeneradas e se mantenham protegidas", diz.

    Segundo Hirota, a área da serra do Mar está razoavelmente preservada no Estado, mas nos limites da mancha urbana da capital é possível ver o "efeito formiga" da ocupação desordenada do solo por moradias.

    "O desafio no Estado é a recuperação ambiental, com a proteção dos fluxos hídricos com mata ciliar. Os municípios têm de planejar seu crescimento e respeitar a Lei da Mata Atlântica, que veta ocupação que não seja de interesse público ou social", afirma a ambientalista. "Cabe ao poder público emitir licenças e autuar infratores com a Polícia Florestal."

    AVALIAÇÕES DISTINTAS

    Desmatamento nos últimos 30 anos - Municípios paulistas que mais perderam floresta nativa

    Desmatamento nos últimos 30 anos - Desmatamento (em hectares)

    O secretário do Meio Ambiente de São Paulo, Ricardo Salles, informou que, de acordo com os dados do governo estadual, não houve aumento do desmatamento.

    Reprodução/Google
    Foto da mesma área feita em maio de 2017, quase um ano após a passagem da tempestade
    Foto da mesma área feita em maio de 2017, quase um ano após a passagem da tempestade

    Salles afirma que a secretaria monitora os biomas do cerrado e da mata atlântica sem distinção, além das áreas de proteção ambiental (APAs) hídricas.

    Além das amplitudes diferentes, há também diferença conceitual importante nos levantamentos realizados pela secretaria e pela SOS Mata Atlântica.

    Para o órgão do governo paulista, o desmatamento é apenas o que foi retirado sem o licenciamento ou a compensação ambiental requeridos nos Termos de Compromisso de Recuperação Ambiental emitidos pela Cetesb.

    Isso quer dizer que, enquanto os dados da SOS Mata Atlântica flagram os remanescentes florestais, os dados citados pelo secretário levam em conta a própria ação da administração ambiental sobre a ocupação econômica do território. Se há licenciamento e/ou compensação, não há, para ele, desmatamento.

    HISTÓRICO

    A mata atlântica cobria originalmente 69% da área do Estado, cerca de 17 milhões de hectares. Hoje, restam 2.810.668 hectares, ou 16,5% do que havia.

    De acordo com o Atlas da Mata Atlântica, nos últimos 30 anos foram desmatados 187.811 hectares do bioma no Estado de São Paulo.

    Dos 645 municípios paulistas, 574 estão localizados no bioma da mata atlântica.

    São Paulo tem seis municípios na lista dos cem municípios que mais desmataram a mata atlântica no país entre 1985 e 2015, e a área total desmatada no Estado nesse período atingiu 33.719 mil hectares, cerca de 337 km², o que corresponde ao tamanho do município de Ilhabela.

    -

    Números da mata atlântica

    Pau-brasil à vista
    Quando Cabral aportou por aqui, a mata atlântica cobria 131 milhões de hectares –15% dos 851 milhões de hectares que tem o Brasil atual. Hoje são 16 milhões de hectares, ou seja, menos de 2% da área do país.

    Em três décadas
    De 1985, quando começou o monitoramento da SOS Mata Atlântica, a 2015, o país perdeu 1,89 milhão de hectares do bioma

    3.429
    dos 5.570 municípios do país (61% do total) estão em bioma de mata atlântica

    Campeões 1
    Dois Estados do Sul e um do Sudeste foram os maiores desmatadores entre 1985 e 2015 (em mil hectares)
    Paraná - 457
    Minas Gerais - 384
    Santa Catarina - 283

    Campeões 2
    Mas foi nesses mesmos Estados que houve a maior regeneração de mata atlântica de 1985 a 2015 (em mil hectares)
    Paraná - 75,6
    Minas Gerais - 59,9
    Santa Catarina - 25

    Rebrotando
    A área total de mata atlântica regenerada no país entre 1985 e 2015 atingiu 219,8 mil hectares. A maior parte dessa regeneração ocorre naturalmente, sem a influência humana, em terrenos abandonados

    72%
    da população brasileira vive em bioma de mata atlântica

    Mangue
    Estado com maior índice de desmatamento recente, a Bahia é a unidade da federação com a maior área de manguezais (em mil hectares)
    Bahia - 73
    Paraná - 33,4
    São Paulo - 26,6

    Valparaíso
    A área de regeneração de floresta em São Paulo de 1985 a 2015 foi de 23 mil hectares. Os municípios paulistas onde houve maior regeneração de floresta são (em hectares)
    Valparaíso - 754
    Castilho - 735
    Quatá - 676

    Dunas
    O Rio Grande do Sul é o Estado com maior área de dunas do país. São 102 mil hectares, mais do que a soma de todos os Estados do Nordeste

    Conservação
    Existem 2.233 Unidades de Conservação (federais, estaduais e municipais) em áreas de mata atlântica no país, que totalizam 12,1 milhão de hectares

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