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    Sunday, 17-Dec-2017 00:03:03 BRST

    Renca foi extinta sem considerar as implicações, diz biólogo americano

    NICOLA PAMPLONA
    DO RION

    02/09/2017 02h18

    Para o americano Thomas Lovejoy, renomado pesquisador da área da biodiversidade, a assinatura presidencial que extinguiu a Renca (Reserva Nacional do Cobre e Associados), localizada entre o Amapá e o Pará, "foi um movimento feito sem a devida consideração".

    A decisão do governo foi suspensa nesta quinta-feira (31) após forte pressão de ambientalistas, para quem a área ajuda a proteger espécies amazônicas.

    "Quando você já tem 20% de área desmatada, qualquer desmatamento é um problema", diz Lovejoy, que esteve pela primeira vez na Amazônia em 1965, ainda recém-formado pela Universidade Yale.

    Desde então, escreveu uma série de trabalhos sobre a floresta, incluindo um ensaio sobre os riscos criados pela construção da Transamazônica.

    Lovejoy esteve no Rio esta semana para um evento sobre infraestrutura sustentável e propôs, em entrevista à Folha, a criação de um comitê com participação do governo, do setor privado e da sociedade civil para pensar a exploração mineral em áreas sensíveis e em como mitigar seus impactos.

    *

    Como vê a abertura da Renca para a exploração mineral?

    O governo, na prática, tem o direito legal de abrir a área, mas o fez sem qualquer consulta. Basicamente, foi apenas uma assinatura, não houve discussão nem mesmo com o Ministério do Meio Ambiente. Então, foi um movimento feito sem a devida consideração.

    Eu acredito que seja necessária uma nova abordagem sobre o setor mineral como um todo, uma espécie de comitê nacional de mineração para pensar isso. Seria formado por governo, setor privado e sociedade civil, com o objetivo de pensar em como extrair minerais em áreas sensíveis do ponto de vista ambiental e social.

    Para entender a Renca

    Como isso poderia ser feito?

    Há um exemplo de abordagem como essa em uma mina da Alcoa, chamada Juriti, perto de Santarém, onde eles fizeram toda a restauração da floresta imediatamente depois de retirarem o veio de ouro.

    Deu resultados?

    Sim, eu estive lá e está funcionando. Não é a floresta antiga, mas é uma floresta tropical. É mais simples, em termos de biodiversidade, mas é uma floresta suficiente. Um dos problemas da mineração são as estradas e o que elas trazem –uma inesperada atividade econômica, desmatamento. Isso tem que ser gerenciado. No meu ponto de vista, uma vez que a mina seja concluída, a estrada deverá ser removida.

    Mas isso funciona? Há alguma experiência global?

    Não necessariamente com minas, mas há uma operação de gás na Amazônia peruana, Camisea, que foi desenvolvida em modelo semelhante a Urucu (campo de gás da Petrobras no AM). Logo que os poços começaram a produzir, eles foram conectados por gasodutos subterrâneos, com a floresta em cima, e há pouco impacto.

    Mas a mineração demanda logística de transporte. Seria possível adotar esse modelo?

    A mineração precisa de transporte, mas também precisamos de minas funcionando. Para fazer dar certo, eu colocaria no contrato uma obrigação de restaurar a floresta quando acabar a operação.

    Qual a importância da área da Renca para a biodiversidade na Amazônia?

    É uma região importante para a biodiversidade, sem dúvida, já que a Amazônia é diferente de uma área para a outra. E ela fica no Amapá, um Estado que se orgulha de ter 70% de área protegida. Quero dizer, é uma área especial.

    Do ponto de vista hidrológico, não saberia dizer o papel dela. Provavelmente não é tão importante quanto o sul do Pará. A questão é que, quando você já tem perto de 20% da área desmatada, qualquer desmatamento é um problema.

    O sr. espera alguma reação da comunidade internacional, como a suspensão de financiamentos, por exemplo?

    Sim. Já estou ouvindo muitas preocupações. Do ponto de vista interno, o risco do Brasil, a curto e médio prazo, é que haja impacto nas chuvas da região Sul. Do ponto de vista internacional, há muito dinheiro de fora para proteger a Amazônia. Você já viu o que a Noruega fez (em junho, o país cortou R$ 166,5 milhões de ajuda ao Brasil por causa do aumento do desmatamento). A Noruega não está feliz.

    O sr. citou o sul do Pará. Qual a sua visão sobre a situação da Floresta Nacional do Jamaxim (que correr risco de perder área após proposta do governo para licenciar uma ferrovia)?

    Eu faria de uma maneira diferente. Eu colocaria a ferrovia bem no meio da BR-162. É apenas uma questão de alterar o projeto.

    Porque a rota já está aberta?

    Isso. Agora, assumindo que uma rodovia seja realmente necessária, há outras maneiras de fazê-la. Poderia ser uma rodovia elevada, como a que vimos aqui hoje (refere-se a apresentação sobre a Nova Imigrantes feita no evento). Alguém já pensou em um jeito de fazer isso.

    O governo vem tomando medidas com pouca discussão e cedendo a pressões ruralistas.

    O problema com as pressões ruralistas para criar mais desmatamento na Amazônia é que isso vai impactar a agricultura no Sul do Brasil.

    Veja isso [mostra em seu celular uma imagem do fluxo de umidade da Amazônia para o Centro-Sul]: não é igual em todos os meses do ano, mas a importância da unidade da Amazônia para o Sul do Brasil está ficando mais forte ao longo dos anos. E agora sabemos o suficiente para dizer que o desmatamento foi uma contribuição decisiva para a seca em São Paulo.

    Quer dizer que a pressão ruralista na Amazônia está ajudando a matar seu próprio negócio no Centro-Sul?

    É isso. E, basicamente, a ambição da agricultura brasileira em se tornar responsável por 10% da oferta de alimentos do mundo depende totalmente da floresta tropical.

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