Folha de S.Paulo

Para concluir tese, biólogo caça surucucu mãe em busca de filhotes


Uma surucucu se enrola sobre a coxa esquerda de Diego Padron enquanto ele conta sobre sua pesquisa focada nessa serpente, a Lachesis muta. Outro indivíduo rastejante da mesma espécie se acomoda na tela do notebook do pesquisador.

"Não costumo manuseá-las. Basicamente descrevo o que elas fazem na mata, o que acontece no dia a dia", diz o herpetólogo –que, além da fundo de tela do computador estampado com a serpente, também a "carrega" tatuada na coxa. Ele estuda as surucucus para sua tese mestrado na Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus.

Para estudar a maior serpente peçonhenta das Américas –em uma região onde, no ano passado, uma pessoa morreu pela picada e por falta de soro antiofídico–, Padron se embrenha, de noite e de dia, em uma mancha de mata atlântica próxima ao município de Igrapiúna (BA). A rotina já dura oito meses.

O maior exemplar encontrado por ele na região media 2,2 metros. A espécie, porém, pode passar de 3 metros e pesar mais de 15 kg.

Com transmissores de 2,5 cm que são acoplados nos bichos, o objetivo é rastreá-los e conhecer o comportamento do animal na natureza.

O dispositivo é termossensível, permitindo coletar também dados sobre a flutuação de temperatura do animal em relação ao ambiente. "É a primeira pesquisa feita por um período prolongado com a espécie –ninguém mais está disposto a trabalhar com ela", diz Padron.

Carlos Jared, pesquisador do Instituto Butantan que não está envolvido na pesquisa de Padron, diz que possivelmente um dos motivos de ela não ser tão estudada é por ser um "bicho misantropo, brucutu, realmente antissocial", que normalmente vive em matas distantes das pessoas.

A L. muta pode ser encontrada na Floresta Amazônica e em algumas partes da mata atlântica, a partir do Estado da Bahia. Segundo Jared, o ciclo reprodutivo é um dos aspectos pouco conhecidos.

E foi exatamente essa questão que despertou o interesse de Padron. A pico-de-jaca é o único viperídeo no qual o desenvolvimento dos ovos ocorre fora do corpo da mãe.

Segundo Giuseppe Puorto, diretor do Museu Biológico do Instituto Butantan, a serpente também apresenta cuidados parentais: coloca os ovos e se enrola ao redor deles para protegê-los.

No entanto, Padron anda sem sorte: nenhuma das duas fêmeas acompanhadas gerou as aguardadas cobrinhas.

Inicialmente, o projeto de pesquisa acompanhava seis cobras. Em uma delas, o transmissor estragou e o animal não foi mais encontrado. Outra L. muta foi morta, possivelmente por trabalhadores de seringais da região.

"Há uma questão cultural. É um animal peçonhento e, mesmo que ele não esteja fazendo nada, as pessoas matam", diz o mestrando. Ele afirma que, durante sua pesquisa, de 11 encontros de picos-de-jaca com humanos, só presenciou duas delas saírem com vida.

Dar de cara com essas serpentes pode ser uma experiência não muito agradável, mas trata-se de "um animal temido pelo tamanho, envolto em muitas lendas, mas que não é agressivo, a não ser que você encha muito o saco dele", diz Puorto.

Segundo dados ainda não consolidados obtidos pela Folha junto ao Ministério da Saúde, em 2016 ocorreram 26.485 acidentes por serpentes peçonhentas e não-peçonhentas no Brasil. Destes, eram relacionados à surucucu somente 1,9% dos ataques –524 concentrados em Estados amazônicos.

"Ela, assim como a mata atlântica [só restam 12% da quantidade original], está perdendo espaço", diz Puorto. "São populações isoladas, o que dificulta a preservação."

Se a cobra corre risco, o biólogo também está cara a cara com o perigo, às vezes literalmente, e sem relação alguma com as serpentes estudadas. "Um dia, andando sozinho na mata, vi brilho de olhos. Era uma sussuarana [espécie de felino de grande porte, parente das onças, tigres e leões]."

"Para pesquisar a pico-de-jaca, precisa ser maluco e ter paixão pelo trabalho", afirma Padron.

A pesquisa de Padron se desenrola, com apoio da produtora de pneus Michelin, em uma reserva particular de cerca de 3.000 hectares, com trechos de mata nativa, mantida pela empresa.

Segundo Kevin Flesher, responsável pela restauração ambiental do local, a área protegida funciona como uma espécie de compensação ao desmatamento por conta da produção de látex em outras partes do mundo, como na Indonésia e na Malásia.

A maior serpente peçonhenta do continente

A Lachesis muta, também conhecida como surucucu, surucucu-de-fogo, surucucu-pico-de-jaca é a maior serpente peçonhenta das Américas

Recebe o nome de pico-de-jaca pela sua pele lembrar a casca de uma jaca

Chega a mais de 3 metros e pode pesar entre 15kg e 20kg

Desenvolvimento dos ovos é fora do corpo da mãe, ao contrário de outras serpentes da família Viperidae

O jornalista PHILLIPPE WATANABE viajou a convite da Michelin.