Folha de S.Paulo

Estação espacial vai ter equipamento brasileiro para reciclar plástico


Uma parceria entre uma empresa brasileira e uma americana levará à Estação Espacial Internacional, no ano que vem, a primeira recicladora de embalagens plásticas.

A ideia é tornar a exploração espacial cada vez mais independente de recursos da Terra –passo essencial para o futuro estabelecimento de bases e colônias na Lua e em Marte, planos que, acredite ou não, estão sendo discutidos a sério por empresas e agências espaciais de todo o mundo para as próximas décadas.

A recicladora é da mesma fabricante da primeira impressora 3D já instalada no espaço, a empresa americana Made in Space.

O primeiro sistema de impressão 3D, que permite criar objetos plásticos sob medida a partir de modelos digitais –desde peças de reposição até obras de arte–, foi levado ao espaço em 2014.

Desde então, a Made in Space e a empresa brasileira Braskem firmaram uma parceria para criar uma segunda impressora 3D espacial, desta vez capaz de usar como matéria-prima o Plástico Verde, um polímero desenvolvido pela indústria nacional a partir da cana-de-açúcar.

Normalmente, materiais plásticos são derivados do petróleo.

"Foi necessário mais de um ano de trabalho da Braskem, ao lado da Made in Space, para a elaboração de uma solução para a impressão 3D em ambientes de gravidade zero, que envolveu também modificações na máquina e na sua condição de operação", disse à Folha Patrick Teyssonneyre, diretor de Inovação e Tecnologia da Braskem.

No ano passado, essa nova impressora 3D da estação foi levada ao espaço pelo cargueiro Cygnus, da empresa Orbital, a serviço da Nasa, e já foi amplamente testada, com o Plástico Verde e outros materiais.

Para fechar o ciclo, faltava a recicladora, cujo projeto será apresentado no Brasil nesta quarta-feira (18), em evento no MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo), com uma palestra de Andrew Rush, presidente da Made in Space.

A máquina em si ainda está sendo desenvolvida, mas deve trabalhar fazendo a moagem e a extrusão do material plástico, que então sai na forma de um filamento já adequado ao uso pela impressora 3D a bordo da estação.

Além do Plástico Verde da Braskem, ela também poderá operar com outros tipos de plástico.

Se o conceito de impressão 3D já está fazendo marolas na Terra (hoje desde brinquedos até casas inteiras já podem ser feitas usando essa tecnologia), no espaço, a gama de aplicações é ainda maior.

"É a primeira tecnologia de manufatura no espaço", destaca Rush. "Ela nos permite criar objetos no espaço, economizar tempo e dinheiro em processos de produção, e elimina a necessidade de projetar peças para primeiro sobreviverem ao lançamento. Agora podemos fazer estruturas no espaço que são otimizadas para aquele ambiente."

"Há grande expectativa sobre os benefícios do projeto. A impressão 3D no espaço foi definida pela Nasa como um dos avanços necessários para uma eventual missão a Marte", complementa Teyssonneyre.

"Conforme explorarmos mais longe no espaço, vamos precisar ter a capacidade de fabricar coisas no caminho", diz o presidente da Made in Space. "A humanidade não vai ser capaz de levar tudo consigo. É impraticável, ineficiente e caro lançar todas essas ferramentas da Terra e transportá-las por longas jornadas."

Mais adiante, Rush vê um potencial ainda mais amplo, na linha do que já está sendo feito na Terra. "A impressão 3D será valiosa para construir habitats durante missões a lugares como a Lua e Marte, usando recursos locais e o regolito [a poeira] como filamento. A impressão 3D também será a tecnologia base que nos permitirá fabricar espaçonaves grandes já em órbita."

E quanto a fabricar no espaço coisas para uso aqui na Terra? Rush diz que isso vai acontecer muito em breve. "No mês que vem, temos um material de fibra óptica que vai ser levado à Estação Espacial Internacional. Essa fibra é chamada de ZBLAN e esperamos que seja o primeiro produto produzido no espaço em larga escala."

A ideia é explorar as vantagens da microgravidade na fabricação da fibra óptica. Na Terra, as condições fazem com que impurezas contaminem a fibra. No espaço, espera-se contornar esses problemas. "O resultado será um produto bem melhor, com maior capacidade de transmissão de dados."