Folha de S.Paulo

Temer fala de 'soviéticos' na Rússia e Lula critica castas na Índia; relembre gafes presidenciais no exterior


Não foram poucas as gafes cometidas por presidentes da República no exterior. Atordoado com a crise política pela qual vive no Brasil, o presidente Michel Temer e o Palácio do Planalto cometeram erros sequenciais desde a semana passada —antes, durante e depois da viagem oficial à Rússia e à Noruega.

Antes de partir para a Rússia, para um encontro com o presidente Vladimir Putin e autoridades e empresários locais, a Presidência chamou o país de "República Socialista Federativa Soviética da Rússia". A alcunha passou a ser utilizada em 1917, quando o país se tornou uma nação socialista, e foi trocada para Federação Russa em 1991, pouco antes da dissolução da União Soviética.

Já na Noruega, Temer se referiu ao rei local como "o rei da Suécia". Aparentando cansaço, o peemedebista disse que iria visitar o rei da Suécia e o Congresso brasileiro antes de deixar a Noruega: "Hoje, uma reunião com vossa excelência e mais adiante com o Parlamento brasileiro e um pouco mais adiante com sua majestade, o rei da Suécia".

Em discurso nesta segunda (26) no Planalto, o presidente Michel Temer lembrou da viagem que fez à Rússia na semana passada, e se referiu aos empresários e empreendimentos locais como "soviéticos". "Estive agora em Moscou e verifiquei o interesse extraordinário dos empreendimentos soviéticos. O deputado federal Darcísio Perondi (PMDB-RS) esteve lá e verificou o interesse de empresários soviéticos e noruegueses pelo que está acontecendo no país", disse.

A Rússia parece ser local de atração para gafes presidenciais. Em dezembro de 2012, durante viagem oficial ao país, a ex-presidente Dilma Rousseff arriscou uma piada e cometeu gafes em discurso ao lado de Putin antes de deixar o Kremlin.

Ela citou caso folclórico de Garrincha na Copa de 1958, quando o craque recebeu instruções do técnico Vicente Feola num jogo contra a antiga URSS e perguntou se ele havia combinado com os russos. "Eu vim aqui para combinar com os russos", disse. A presidente foi corrigida por ministros ao errar o país-sede da Copa (que foi a Suécia) e o jogo (da primeira fase, não a final). Os brasileiros riram, mas Putin permaneceu impassível.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também cometeu gafes históricas. Numa viagem à China, o Ministério das Relações Exteriores chegou a elaborar um manual para evitar erros tanto da comitiva presidencial quanto de empresários convidados. Uma das mais famosas foi quando o petista causou constrangimento ao dizer num discurso de improviso que Windhoek, capital da Namíbia, parece não estar na África, por sua limpeza e arquitetura.

Antes dele, Fernando Henrique Cardoso também cometeu gafes. O ex-presidente tucano chegou a revelar uma delas numa audiência de depoimento ao juiz Sergio Moro. FHC contou que, numa ocasião, ele recebeu um presente e logo depois, sem perceber, deu de volta o mesmo objeto ao convidado. Em outra, presenteou a rainha Elizabeth 2ª com um pato com bico de prata. Ela perguntou "que pássaro é esse?". Ele, sem graça por não saber, disparou: "É um jaburu [ave branca de cabeça preta, mas também gíria que significa pessoa muito feia]". A rainha adorou o nome.

Relembre abaixo algumas das gafes presidenciais no exterior:

Antes de partir em viagem oficial à Rússia, a Presidência da República chamou o país de "República Socialista Federativa Soviética da Rússia". O erro foi corrigido em seguida. De volta ao Brasil, em encontro no Palácio do Planalto, o peemedebista chamou empresários russos de "soviéticos".

Aparentando cansaço, Michel Temer se referiu ao rei da Noruega como "o rei da Suécia".

O presidente Michel Temer se enganou durante uma chamada telefônica. Ele pensava falar com o presidente argentino Mauricio Macri. Mas, na verdade, ele conversava com o jornalista Jorge García, da rádio argentina "El Mundo". Na curta conversa, o jornalista pergunta a Temer como ele está e o presidente responde. "Muito bem. Como está presidente?" Em seguida, Temer acrescenta: "Muito obrigado, presidente. Quero visitá-lo na Argentina".

A ex-presidente Dilma Rousseff não conseguiu derrubar o embargo russo à carne brasileira, mas arriscou uma piada e cometeu gafes em discurso ao lado de Vladimir Putin antes de deixar o Kremlin. Ela citou caso folclórico de Garrincha na Copa de 1958, quando o craque recebeu instruções do técnico Vicente Feola num jogo contra a antiga URSS e perguntou se ele havia combinado com os russos. "Eu vim aqui para combinar com os russos", disse. A presidente foi corrigida por ministros ao errar o país-sede da Copa (que foi a Suécia) e o jogo (da primeira fase, não a final). Os brasileiros riram, mas Putin permaneceu impassível.

O petista causou constrangimento ao dizer num discurso de improviso que Windhoek, capital da Namíbia, "parece não estar na África, por sua limpeza e arquitetura."

Durante um banquete de gala oferecido pela rainha Elizabeth 2ª, em 2006, o ex-presidente Lula errou ao dizer da "contribuição do inglês Charles Miller" ao futebol brasileiro. Miller era paulista, filho de um inglês com uma brasileira.

Em 2004, Lula discusava na Índia quando, na parte improvisada, cometeu uma gafe. "O desafio colocado para nós é o de que não basta crescer para atender uma pequena casta da nossa sociedade", disse. A Índia é dividida em castas. A discussão do assunto com estrangeiros é vista com reservas no país.

Aparentando cansaço, o brasileiro leu seu discurso até o final no jantar oferecido pelo presidente sírio, Bashar al Assad, e pediu "um brinde à felicidade do presidente. Fez-se o silêncio na sala do Palácio Damasceno. No jantar, eram servidos somente suco e água. Lula aquiesceu, cumprimentou Al Assad, sentou-se e o brinde foi cancelado.

Lula chama venezuelanos de bolivianos

Em 2006, durante um comício, Lula se confundiu e chamou os venezuelanos que aguardavam seu discurso de "homens e mulheres da Bolívia". Foi corrigido pelo tradutor, e consertou a fala, dirigida aos "homens e mulheres da Venezuela".

Durante o Fórum Social Mundial, no Rio Grande do Sul, o ex-presidente chamou o colega presidente Néstor Kirchner de Menem (1989-1999), a quem tinha criticado um pouco antes.

FHC ressuscita a Tchecoslováquia

Em 1994, ao saudar o encontro com o presidente da República Tcheca, o dramaturgo Václav Havel, FHC disparou: "É uma grande satisfação estar na Tcheco-Eslováquia". A Tcheco-Eslováquia, emblema da "cortina de ferro" e do comunismo defunto do Leste Europeu, não existe mais desde 1º de janeiro de 93, quando a Eslováquia e a República Tcheca se separaram.

Em 1997, o presidente do Conselho de Ministros da Espanha, José María Aznar, chamou duas vezes o Brasil de Portugal em seu discurso oficial, durante almoço oferecido pelo presidente Fernando Henrique Cardoso no Itamaraty.

Chirac chama FHC de presidente do México

O ex-presidente da França, Jacques Chirac, confundiu-se e disse a FHC, em 1997, que estava feliz em receber mais uma vez "o presidente do México". gafe, dita em francês, não passou despercebida pelo ex-presidente brasileiro, que mordeu os lábios no canto da boca, mas seguiu depois sorridente.

O ex-presidente do Chile, Sebastián Piñera, cujas gafes eram recorrentes, chamou Brasília de Brasilea quando viajava para a posse de Dilma Rousseff. "Chegando em Brasilea para mudança de comando Lula-Dilma", postou no Twitter.