Folha de S.Paulo

Microsoft cria armadilha de mosquitos para 'filmar' epidemia


Uma novidade para o monitoramento e possível combate a surtos e epidemias, como as de dengue e zika, é uma geringonça capturadora de insetos criada pela Microsoft.

A novidade foi apresentada a cientistas e jornalistas no encontro anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS, na sigla em inglês)

O aparelho, ainda em estágio de testes, é composto por 64 pequenas celas, que, idealmente capturaram um inseto cada. Ele funciona como uma armadilha de CO2, gás que é exalado por aves e mamíferos e que guia insetos desejosos de sangue em sua direção.

Esse tipo de quimiotactismo (atração por substância química) está presente tanto em barbeiros, vetores da doença de chagas (causada por um parasita unicelular, não por vírus, como é o caso da zika e da dengue), quanto em fêmeas de Aedes aegypti e outros mosquitos

Uma vez atraídos pelo CO2, os bichos, já dentro de uma das células, são atravessados por uma luz infravermelha. A "sombra" que produzem gera um tipo de assinatura que faz com que a máquina, com 80% de certeza, capture o inseto desejado, como o Aedes aegypti, por exemplo.

Doenças transmitidas pelo Aedes aegypti

Segundo Ethan Jackson, pesquisador do Projeto Premonição da Microsoft, disse à Folha, uma das limitações é que o dispositivo não é muito bom para pegar machos de Aedes (que não se alimentam de sangue), mas que o índice pode chegar perto de 100% no caso das fêmeas, ao se programar a captura para acontecer nas horas em que elas estão mais ativas.

O aparelho foi feito de modo a conseguir rotular de maneira única (com localização via GPS, hora, data, umidade, entre outras informações) cada inseto capturado.

Depois disso, a biologia entra em cena: é possível analisar cada inseto, de quais espécies de animais ele se alimentou, qual é sua flora bacteriana e se está infectado com algum vírus.

Desse jeito, dá para saber, considerando os intervalos de tempo entre as capturas, se está aumentando ou diminuindo a quantidade de insetos capazes de transmitir uma arbovirose, por exemplo, permitindo criar uma espécie de filme premonitório da epidemia.

Esses procedimentos são realizados em laboratório de biologia molecular –e não no aparelho. Mas com o avanço na automação do dispositivo, espera-se que esse fluxo –do campo ao laboratório– seja acelerado. Depois disso, os dados dos insetos (como o status de infecção) podem ser integrados na nuvem e analisados em qualquer lugar do planeta, apontando a intensidade e a direção do surto.

Houve um teste de campo na cidade de Houston, no Texas. Foram encontrados três tipos de insetos: o Aedes aegypti, o A. albopictus (primo silvestre do aegypti) e uma espécie de pernilongo. Nenhum deles estava infectado –como previsto, já que não há nenhum surto na região.

Segundo Jackson, a expectativa é que o capturador de insetos, quando produzido em escala, custe algumas centenas de dólares, sendo capaz de competir em preço com outros dispositivos menos sofisticados.

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