Folha de S.Paulo

Descoberta de brasileiro rendeu Nobel de medicina a britânico


Há pouco mais de dois meses, o cientista brasileiro Boris Vargaftig, 80, recebeu em Londres um prêmio pelo conjunto de sua obra, conferido pela "International Associations of Inflamation Societies", que reúne pesquisadores da área da inflamação de diversos países.

Em seu discurso de agradecimento, o pesquisador tornou pública uma carta que recebera no final de 1970, quando trabalhava numa pequena farmacêutica na França.

Nela, o farmacologista inglês John Vane (1927-2004) elogia Vargaftig por seus experimentos recentes, que esclareceram o mecanismo de ação dos remédios anti-inflamatórios, e lhe informa que seu laboratório havia conseguido confirmar os resultados.

Por um desses descaminhos não tão incomuns na história da ciência, 12 anos depois, essa descoberta, reconhecida por Vane, seria um dos motivos apontados pelo comitê do Nobel para conferir ao inglês a láurea de fisiologia ou medicina.

Misturam-se nessa trama vaidades, uma certa dose de ingenuidade, o desejo de reconhecimento e a frequentemente brutal competição do mundo científico.

Filho de imigrantes europeus que deixaram o Velho Continente pouco antes do início da Segunda Guerra, Boris Vargaftig nasceu na Argentina em 1937, mas passou no Brasil sua infância, adolescência e início da vida adulta.

Em 1963, formou-se em medicina pela Universidade de São Paulo. Escolhido como orador de sua turma, o estudante trotskista –ideologia que mantém até hoje– foi proibido de discursar na cerimônia de formatura por motivos políticos. "Foi a primeira vez que isso aconteceu nessa faculdade ", afirmou à Folha.

A perseguição logo atingiu outro patamar. No ano seguinte, já durante a ditadura militar, ficou encarcerado por 52 dias na prisão-navio Raul Soares, em Santos.

A prisão teve algo de cinematográfico. "Estava em Campinas, operando um cão com alunos em volta; a polícia chegou interrompendo a aula e me prendeu."

Percebeu que era hora de sair do país. Foi para a França, onde conseguiu emprego em uma pequena farmacêutica numa cidade próxima de Paris. "Um lugar extremamente simpático, mas muito provinciano e culturalmente atrasado uns dois séculos." Tinha, no entanto, o mais importante: liberdade científica para investir em suas ideias.

No final dos anos 1960, a pergunta sobre como funcionam os medicamentos anti-inflamatórios estava no ar, com vários grupos pesquisando o assunto. "Havia tanto o interesse científico como o interesse econômico, de produzir melhores drogas a partir do conhecimento de seu modo de ação", diz.

Por meio de experimentos, Vargaftig descobriu que a síntese de prostaglandinas –moléculas que aumentam a permeabilidade vascular, induzindo e aumentando o processo inflamatório– é bloqueada pela ação de anti-inflamatórios, como a aspirina.

Descreveu seus achados em um artigo e o submeteu à prestigiosa revista científica "Nature". Entregou também uma cópia do texto ao amigo e farmacologista Sérgio Ferreira (1934-2016), que trabalhava à época na Inglaterra, justamente no laboratório chefiado por John Vane.

Ferreira mostrou o artigo a Vane, que também buscava a solução para a questão do funcionamento dos anti-inflamatórios. Deu-se então uma verdadeira corrida científica.

A "Nature" acabou recusando o artigo de Vargaftig, sob a alegação de que o texto não possuía "interesse geral" –até hoje um dos critérios do periódico.

O brasileiro o submeteu então a uma revista menor, chamada "Pharmacology", na esperança de que fosse publicado logo. Contudo, três artigos de Vane e colaboradores sobre o tema, embora submetidos depois, acabaram saindo antes na mesma "Nature", o que deu a primazia ao britânico.

Vargaftig vê a diferença de estrutura entre os dois locais de pesquisa como um fator decisivo. "Vane administrava um laboratório enorme, bem equipado e cheio de bons cientistas, uma verdadeira máquina de produzir artigos. Eu trabalha com mais três pessoas, que estavam envolvidas nos projetos da empresa", pondera.

"Tudo isso faz parte do jogo. Eu sabia –ou deveria saber– o risco que corria. O que eu não esperava é que eles nunca me citassem. É como uma espécie de crime contínuo", protesta. O brasileiro, por sua vez, afirma ter sempre citado os trabalhos de Vane.

Vargaftig, contudo, diz não guardar rancor do amigo. "Sérgio estava deslumbrado com a Europa e a Inglaterra; provavelmente queria impressionar seu chefe com o que eu havia descoberto."

"Creio que seja difícil para algumas pessoas, mesmo aquelas honestas, resistir a uma oportunidade de fazer algo marginal, mas que pode ter um efeito não marginal."

"Por outro lado", prossegue, "ao entregar o artigo ao Sérgio, eu tinha a secreta esperança de que ele, estando na Inglaterra, pudesse me ajudar a publicá-lo."

Se se mostra compreensivo com o amigo brasileiro, Vargaftig não poupa críticas a Vane. "Falava bem, era elegante, esperto e provavelmente inteligente, mas, além de inculto, era cínico e arrivista. Eu diria que ele era uma figura semelhante aos senhores do café paulistas de antigamente."

Vane, anos depois, ofereceria ao brasileiro uma posição em seu laboratório. O salário e as condições de trabalho eram os melhores possíveis. "Era realmente uma compra, e eu recusei."

Na década de 1980, o brasileiro escreveu uma carta a uma revista de novidades farmacológicas em que contava a história de seu pioneirismo na questão dos anti-inflamatórios. "Num congresso, logo depois, Vane me perguntou por que eu havia publicado a tal carta. Respondi que era exatamente como eu me sentia com relação a ele. Nunca mais nos falamos após isso."

Ulteriormente, Vargaftig viria a ter uma profícua carreira no comando da área de peçonhas do Instituto Pasteur, em Paris. Em 2002 voltou ao Brasil e à USP, onde ocupa o cargo de professor sênior no Instituto de Ciências Biomédicas.

A perda do crédito pela descoberta do modo de funcionamento dos anti-inflamatórios não o aflige hoje tanto como antes. "Quando eu estava cientificamente ativo, sentia muito mais. Eu ia para um congresso e ouvia as pessoas dizerem que 'após as grandes descobertas de Vane...'."

Entretanto, embora rechace qualquer ressentimento quanto ao Nobel atribuído a Vane, Boris Vargaftig deixa claro seu desconsolo com relação à atitude do britânico. "Se eu eventualmente viria a ganhar ou não o prêmio, isso é um exercício de futurologia; o que eu queria era ter recebido o reconhecimento pelo meu trabalho, e isso ele nunca fez."