Folha de S.Paulo

Num hospital público do Rio


O CTI lembra uma dessas enfermarias provisórias, improvisadas em ginásios ou escolas após grandes tragédias. Nada ali, porém, é provisório, a tragédia é permanente. Os pacientes, parafraseando Caetano Veloso, são quase todos pretos. Ou quase pretos. Os médicos são quase todos brancos. Ou quase brancos.

Homens e mulheres dividem o mesmo espaço, velhas e velhos de bocas escancaradas parecem saídos de gravuras do Goya. Todos usam fralda. Os pés, descalços e imóveis, são carcomidos, calcanhares rachados, unhas cascudas: pés de chinelo. Os roupões entreabertos revelam aqui e ali os peitos murchos subindo e descendo com dificuldade.

Literalmente os últimos suspiros. Um ou outro leito tem ao lado uma parente, um cobertor trazido de casa, uma quentinha num Tupperware, uma garrafa PET com uma Fanta genérica, mas 90 por cento daquelas pessoas está só. Num dos leitos um corpo pequeno, embrulhado num lençol, espera para ser levado ao necrotério, feito uma múmia. "Na emergência, o paciente morre sozinho", diz uma enfermeira.

Um funcionário explica que a maioria daquelas pessoas não deveria estar ali. São hipertensos que não se cuidam, diabéticos que desrespeitam a dieta, gente que sofre de doenças controláveis e por falta de atendimento primário ou ignorância acaba competindo pelos leitos das vítimas de infarto, AVC, trauma. Mesmo os traumas poderiam ser evitados. "Duas doenças que matam muito na nossa região: 'moto' e 'laje'. Moto é epidemia.
No Natal dá muita facada. Festa de família, aqui, acaba na faca.

Réveillon é mais tiro e queimadura, por causa dos fogos." "Esses são os remédios que a gente tem hoje", diz o chefe do plantão, apontando um print com a pequena lista na parede. "Eu trabalho em hospitais públicos há 30 anos e nunca vivi uma crise como essa. Meu salário de novembro, dezembro, janeiro e fevereiro eu não recebi e sei que nunca vou receber. Falta tudo, tudo, tudo". Em vez de travesseiros, fraldas. Sondas de urina são usadas no estômago.

Na falta de um cateter de veia profunda, "disseca-se" (procedimento cirúrgico no qual sacrifica-se alguma veia grossa do braço para introdução de uma sonda). A medicação é dada, mas a veia é perdida para sempre. "Já cansei de entubar no corredor, nas cadeiras da espera, no chão", desabafa um médico. Outro conta que, por falta de material, drenou o tórax de uma paciente com uma mangueira de fogão. Se ela tivesse morrido, ele certamente seria processado. Se ele não fizesse nada, ela morreria.

Vamos para uma sala menor, espécie de emergência da emergência e, incrivelmente, o cenário piora. Não há monitores cardíacos para todos, é no olho que o médico sabe quem está morrendo. "Uma mulher de 60 e poucos anos, porém, está ligada aos eletrodos: seu monitor apita e uma luz vermelha pisca. Sua frequência cardíaca oscila entre 15 e 20. "Aquela mulher ali não tá morrendo?", arrisco.

O médico assente e explica que já fez tudo o que estava ao seu alcance. Pergunto a outro médico: se ela estivesse no Sírio, no Einstein, iria morrer? Ele diz que o que foi possível fazer ali seria só o começo num hospital bem equipado. A mulher tinha chegado no dia anterior, caminhando, reclamando de falta de ar.