Folha de S.Paulo

Corte


Eu não queria chegar ao Japão, eu só queria encontrar minhocas. Por isso cavava com uma enxada em miniatura atrás de um pé de goiaba — de costas pra festa —, no quintal dos nossos vizinhos Abrão e Linda Ferez. Os filhos deles — Michel, Samir e Karime — brincavam com minha irmã e outros dois meninos em volta de um buraco de um metro e meio de profundidade por uns três de largura. Não sei o que estava sendo construído ali.

Também não lembro por que eu estava sozinho. Uma cratera do tamanho de um carro não era algo que eu desprezasse. Minha hipótese: fiquei excitado demais, perdi o controle, falei bobagem e fui expulso do grupo. E lá estava eu com a porcaria de uma enxadinha de cabo frouxo, sendo picado pelos mosquitos, enquanto meus pais e os amigos deles se divertiam em torno da churrasqueira e a Paula e os nossos amigos enlouqueciam escorregando pra dentro do buraco.

Em certo momento desliguei de tudo e me concentrei no que de fora (depois me disseram) parecia inveja: eu tentando abrir um buraco bem no dia em que eles tinham um buraco enorme, profissional. Não importa. O que pode ter começado como fingimento aos poucos foi se tornando legítimo, e aquele buraco pequeno e imperfeito agora era o centro do meu universo. Senti um orgulho desmedido quando encontrei a primeira minhoca — partida ao meio, sem querer, por um golpe da lâmina. Mesmo achando esquisito, guardei as duas metades no bolso do short.

Foi nesse momento que ouvi os gritos do meu pai. Virei a cabeça devagar, torcendo pra que não fosse nada grave, mas já era tarde: desesperado, meu pai atira o violão (vermelho-alaranjado, o tampo esfolado pela palheta) contra o muro e sai feito um louco pra socorrer minha irmã. Numa de suas descidas ao interior do buraco, um casco de garrafa quebrado tinha rasgado de fora a fora sua coxa direita. Nunca vou esquecer: meu pai correndo com minha irmã no colo e na perna dela uma grande boca vermelha aberta. O sangue não escorria. (Até hoje, seja qual for o contexto, sempre que ouço a palavra abismo penso nesse corte.)

Minha mãe me levou pra casa, meu pai passou mal durante a operação, minha irmã voltou meio grogue da anestesia e eu fiz o que pude pra ser um irmão legal. Levava água pra ela, chocolate, brinquedos. Se ficava com raiva, me controlava e ia andar de bicicleta.

Me angustiava ver minha mãe chegar do trabalho e encontrar minha irmã com a perna enfaixada. A expressão do meu pai também me comovia. Era como se eles tivessem usado máscaras esse tempo todo e de repente elas tivessem caído. Durante algumas semanas, eles deixaram de ser meu pai e minha mãe pra ser apenas pessoas comuns, especiais. Comecei a ter medo de que um de nós morresse.

— Doeu muito? — perguntei pra minha irmã quando ela sarou.

— Não sei. Não lembro direito da sensação.

Depois disso, como todo mundo, ela se deu mal algumas vezes e raramente precisou de mim. Mas eu, eu ainda sinto que estou cavando um buraco e enfiando minhocas mortas nos bolsos, enquanto minha irmã corre perigo e meu pai estraçalha seu estimado violão.