Folha de S.Paulo

Excelência


"Vossa Excelência é um bandido!", disse o ministro, produzindo mais um ruído de comunicação, mais um desses despautérios com que esse governo tenta -entre tantos outros malfeitos- nos enlouquecer. "Excelência" adjetivada de "bandido"? É um erro lógico grave chamado "contradição entre termos" (contradiction in terms). Círculo quadrado? Não! Alguém anda tomando o santo nome da excelência em vão...

Corria o ano de 1973 e eu não estava nada satisfeito com meu título de pós-graduação em gastroenterologia. Perguntei a um clínico amigo qual era o melhor centro sul-americano de estudo das doenças do fígado onde pudesse sanar minha deficiência (a hepatologia é a parte mais difícil da gastro). "Você está com sorte, Daudt, é logo ali no hospital de Bonsucesso, o serviço do Fernando Alvariz, ele é o homem do Popper no Brasil."

"Hans Popper? Meu Deus!", pensei. Ele era o papa da hepatologia em todo o mundo. Foi assim que, através do professor Alvariz, tive como guia de excelência o primeiro judeu austríaco da minha vida (o segundo veio cinco anos depois, chamava-se Sigmund Freud).

Excelência, do latim "excelere", erguer, levantar ao alto, elevar-se acima de. O serviço de Alvariz me ensinou o conceito sem jamais tê-lo mencionado, bastava o exemplo. Era o sonho de um médico: rondas clínicas diárias; reunião de fatalidades (onde se discute a causa de cada morte); anátomo-patologia correlacionada com a clínica... Isso tudo num hospital público! "É, Daudt, eu sou funcionário público, isso quer dizer que trabalho em função do público, a serviço do público", disse-me ele.

Foi quando aprendi que funcionário público não é um ser arrogante, preguiçoso e negligente que nos atende mal parecendo que nos presta um favor, nem nos empurra um programa de arrecadar nosso dinheiro que não funciona ("tente de madrugada"), mas mesmo assim vamos ser multados.

Com ele também aprendi o que era ser médico. Cuidava de um paciente com câncer de fígado terminal que teve uma parada cardíaca na minha frente. Bem treinado no pronto-socorro, coloquei-o no chão da enfermaria e comecei manobras de ressuscitação. Debalde, claro.

Alvariz me chamou: "Daudt, uma coisa é parada cardíaca, outra é morte; aquele senhor morreu". Ah, então o médico não serve à medicina, não serve à burocracia, serve aos interesses maiores de seus pacientes...

O conceito de ser médico, junto com o de excelência, se estendeu ao ser pai, psicanalista, professor, colunista de jornal: alguém que cuida, que se importa, que fala coisa com coisa, que não enlouquece os outros nem os deixa perplexos, que passa adiante o absorvido, que busca ensinar e aprender através de exemplos. Como eu os tive.

Exemplos de excelência. Como precisamos deles, como nos fazem falta! O juiz Sergio Moro nos encanta pelo trabalho bem feito. O Joaquim Barbosa é outro: sim, Lula, um homem pobre e negro que subiu na vida e que, em vez de nos despertar ódio por isso, nos dá imenso orgulho, porque nos faz olhar para cima.

Sim, há pessoas que, ao contrário de tantos com títulos burocráticos, merecem ser chamadas de "Excelência".