Folha de S.Paulo

Corrupção da autoridade


Entre as doenças morais de que o Brasil sofre, a corrupção do conceito de autoridade é das mais tristes. Nos dias atuais, quando se fala de corrupção só se pensa em roubo, mas o sentido original da palavra é deterioração, apodrecimento, estrago.

Pense na criação de filhos: a autoridade sumiu, nossas crianças estão mimadas, não se sentem pro- tegidas pela força moral de quem deveria lhes servir de referência, inspirar respeito e lhes ensinar valo- res elevados para que conduzam bem suas vidas.

Pense em políticos e governan- tes que não admiramos nem respeitamos, pois não reconhecemos neles a autoridade, ou a moral, para que ocupem os lugares de comando em que estão.

O que aconteceu com o concei- to de autoridade, para que tenha se corrompido desse jeito, para ter sumido de nosso horizonte de valo- res prezados?

Houve uma triste coincidência histórica: uma ditadura militar em nosso país e uma reviravolta de costumes mundial. A primeira fez com que autoridade e autoritarismo parecessem sinônimos. Ora, o autoritarismo é a doença da autoridade, é quando quem manda não se preocupa com o respeito do comandado, quando acha que a intimidação e o medo que desperta são suficientes.

Vinte e um anos de autoritarismo foram suficientes para que o senso comum absorvesse a ideia de que qualquer exercício de autoridade é abusivo em si. Resulta que temos, em posição de comando, pessoas que ora são fracas e insuficientes, ora são escandalosas, gritam, humilham, fazem seus subordinados chorar, verdadeiras caricaturas de autoridade. Ambas não exercem sua função com eficiência.

A reviravolta nos costumes teve como ícone o maio de 1968 e seu "é proibido proibir", o advento da pós-modernidade e seu clima de negação de valores, de aversão a qualquer coisa que parecesse hierarquia... e autoridade.

Autoridade é poder de mando, e é sempre exercida pela força: força de intimidação e força de saber. Quando se diz que "fulano é uma autoridade em física", se está reconhecendo seu saber e a força que ele contém. Suas palavras serão levadas em conta, pois convencem (vencem junto), não intimidam.

Quando um filho nasce, a disparidade de poder que temos com ele é tamanha que nossa melhor autoridade será exercida como a de um déspota esclarecido: decidimos o que ele come, como se veste etc.

Mas ele cresce e desenvolve assustadora capacidade de compreensão. É hora de introduzirmos a autoridade de saber junto a ele: se subiu na janela, em vez de dizermos "Desce já daí", podemos dizer: "Perigo, dodói grande!" O segundo comando convence, pois ele sabe o que é perigo, o que é dodói e o que é grande. Ele foi respeitado em sua capacidade de compreensão, ele adere ao comando como algo benéfico a ele: isso é autoridade.

Foi um comando respeitoso, sim, mas também sem cheiro de empulhação, de obra de marqueteiro, sem insulto à inteligência. A autoridade de saber é a mais eficaz das autoridades.

Mas... saber ou intimidação, autoridade é sempre uso de algu- ma força; a democracia tem que ser democrática, mas não pode ser fraca. Quando, a despeito de nossos melhores esforços, o comandado debocha do comando, a força da intimidação não pode ser dei- xada de lado.

É como disse um paciente meu: "Quando Freud não explica, Lampião entra em ação".