Folha de S.Paulo

Velhice


Comemorando os 400 anos da morte de Shakespeare: "Não devias ter ficado velho antes de ficares sábio", disse o Bobo ao rei Lear, quando ele se lamentou dos erros que cometera.

Velhice e sabedoria, de fato, não se confundem, mas se a gente cultivar com afinco a segunda, pode bem diminuir as agruras da primeira.

Um amigo de 91 anos me respondeu, quando lhe perguntei como ia de saúde: "Olha, Daudt, tu sabes que eu estou morrendo de câncer, mas enquanto eu me sentir bem como me sinto, eu sou eterno". Pensei que ele dissera o mesmo que Vinicius: "Que eu possa dizer do amor -da vida- que tive: que não seja eterno, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure".

Uma cliente jovem veio me dizer que aprendeu que a impermanência lhe dá conforto porque traz desapego, e portanto, menor medo de perder. Ai, meu Deus, onde foi que ela aprendeu isso? "Ó menina, que desapego? Então você vai passar pela vida, só porque ela não é permanente, desapegada das coisas e das pessoas que te importam? Só por medo de perdê-las? Perder dói, sim, mas quando a perda chegar". Minha mãe dizia, quando eu perguntava se ela tinha medo de morrer: "A morte é um momento, e da minha vida não há de roubar mais do que isso: o seu momento".

Isso tudo para dizer que, assim como os monges trapistas, que se sepultam em vida para combater o medo da morte, há pessoas que
cultivam a velhice, e se tornam velhas (e não sábias) antes que a idade chegue.

Meu pai foi responsável por que eu entendesse que a velhice é um estado de espírito. Ele ficou velho duas vezes na vida: a primeira, aos 95, quando foi obrigado a aposentar seu querido motorista só porque havia ficado cego. Tratado da depressão, ele voltou a ser o jovem de sempre. A segunda, quando
resolveu morrer, aos 102, e dessa não voltou.

"Ah", disse eu, "então a gente pode decidir se é velho ou não?!" Foi quando escolhi a idade de 25 anos para viver. Invisto nela, e ela está se tornando cada vez melhor. Comparada com a cronológica, então... Aos 25, eu era um imbecil. Não me achava bonito (a modéstia me impede de dizer o que acho de mim hoje). Não tinha autonomia, nem dinheiro, nem a liberdade que essas coisas trazem. Não tinha investido em sabedoria.

Então eu estou negando os perrengues que a idade traz? Claro que não. Só não quero levar, além da queda, o coice. Calvície? Nomes que demoram a ser lembrados? Algumas dores articulares? Diminuição do tempo de sono? Ok, paciência, mas achar que disso decorre uma retirada do erotismo e da curiosidade, do achar graça em viver? Ah, não! Para usar uma linda invenção de minha filha para expressar discordância carinhosa, "CÁSSUABOCA!"

Voltando à sabedoria de minha mãe, ela me disse um dia: "Ah, meu filho, a velhice é penosa... mas, considerando a alternativa, eu a aceito".

E "melhor idade" é o cacete! Quem inventou essa idiotice? A velhice foi responsável pelo primeiro palavrão que ouvi na TV, ainda nos anos 80. Roberto D'Ávila entrevistava o editor José Olympio e perguntou-lhe que tal era ser velho.

J. O. respondeu: "É uma merda".