Folha de S.Paulo

A linguagem clara é fundamental para nossa saúde mental


"Afinal, o que você quer com seus artigos?" A resposta mais de raiz que posso dar é que quero sobreviver e ser amado. Mas essa é uma razão genérica para qualquer coisa que fizermos, já que os instintos de sobrevivência pessoal e da espécie são os dois motores de nossos atos.

Até que eles se manifestem na linguagem, um longo caminho é percorrido. Os instintos, em nossa espécie, foram chamados por Freud de "impulsos" ("trieb", em alemão; "drive", em inglês) por serem moldáveis pela cultura: todas as suas experiências de satisfação marcam nossa memória, e vão construindo um sucessor supercomplexo chamado "desejo inconsciente". Este se expressa em nossas ações conscientes: vontades; repulsas; tesões; gostos e desgostos; silêncio intencional; palavra falada e escrita.

Essas duas últimas são como nós traduzimos o "mentalês", o nome que Steven Pinker deu para a linguagem da mente. Ele não é fácil de traduzir, você certamente já ouviu alguém dizer "não tenho palavras para explicar o que sinto".

E pensar que tudo começou com o prazer que sentíamos na boca, quando bebês... Ligado, claro, ao impulso sexual (ele segue a trilha do prazer, e não a vontade de perpetuar a espécie: se a espécie dependesse da vontade de ter filhos, já estaria extinta há muito tempo). De prazer em prazer, a oralidade vai se distanciando do sexo em si, mas não do prazer: uma das experiências prazerosas que construíram a minha escrita é ter lido na infância um anúncio de rua que dizia: "Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê". O leitor voraz aqui adorou, pois queria bem falar, bem ouvir, bem ver... e bem escrever, como consequência.

Foi a linguagem médica que despertou em mim a obsessão por clareza: quando descobri que tínhamos três palavras para esconder nossa ignorância (doença idiopática, essencial ou criptogenética, significa uma coisa só: de causa desconhecida), achei desonesto com os pacientes. Entendi que o jargão pode ser útil para comunicação entre profissionais, mas é abusivo
se usado fora da tribo.

Aí veio a psicanálise, e a coisa piorou. Mas eu já estava vacinado: entrei nela sendo médico clínico, e você não imagina o quanto um médico clínico "se acha". De modo que tive um prazer especial de dizer a meus professores, quando vinham com "ah, porque o obsessivo quer o falo, enquanto o histérico é o falo", que não tinha entendido, se eles poderiam se explicar em língua de gente. Quando não conseguiam, sugeriam que o burro era eu (não com essa clareza, óbvio).

McLuhan disse que o meio é a mensagem, então presto a atenção em como uma pessoa fala: se é obscura, provavelmente está querendo me enrolar. Se é lógica e transparente, a pessoa me respeita. Em ambos os casos, a mensagem é expressão de seus desejos: predador ou cooperativo.

A linguagem clara é fundamental para nossa saúde mental: pense no alívio que é a novidade de ver criminosos, por mais poderosos que sejam, indo para a cadeia em consequência de seus atos, pois esses foram postos às claras. Pense em como vimos sendo enrolados por suas "narrativas" falaciosas, e em como isso nos deixa doentes de raiva impotente.