Folha de S.Paulo

Civilização não se alcança só com tecnologia


Nada melhor do que nascer e viver em dois séculos que permitiram à humanidade manter uma sonda espacial viajando pelo éter por mais de uma década e depois pousá-la no cometa Churyumov-Gerasimenko.

Durante dois anos a nave europeia Rosetta revelou segredos desses astros esporádicos. Agora, descansa silenciosa sobre um deles.

Também é ótimo testemunhar que o veredicto cruel da natureza pode, ao menos em alguns casos, ser revertido pela biotecnologia. Defeitos em genes de mitocôndrias –as diminutas usinas de energia das células– causam síndromes como a de Leigh, que impede o desenvolvimento normal do sistema nervoso e condena criancinhas à morte certa.

Após juntar o óvulo de uma mulher com mitocôndrias saudáveis ao núcleo do de outra portadora do defeito, médicos dos EUA anunciaram há dias o nascimento de um bebê livre do prognóstico fatal. Isso é bom e deve ser saudado, por impreciso que seja falar em "filho de três pais" e desprovidos de sentido que sejam os pruridos éticos a respeito.

Vários desses avanços em engenharia e biotecnologia contribuem também para tirar a investigação policial da idade da pedra em que se encontrava ainda na maior parte do século 20. Pense na comprovação de identidade por meio de testes de DNA –quantos réus não terão escapado da pena de morte graças a eles, nos países que insistem em manter essa punição bárbara?

Há que considerar, contudo, que civilização não se alcança apenas com tecnologia. Leis, direitos, procedimentos e compaixão também são ingredientes indispensáveis dessa liga muito fácil de desandar.

Por exemplo, quando o presidente democraticamente eleito de uma nação de mais de 100 milhões de pessoas, como Rodrigo Duterte nas Filipinas, manifesta o desejo de matar –sem julgamento nem piedade– todos os bandidos e viciados do país, estimados em mais de 3 milhões de almas. Gente. Pessoas.

Não chegamos a tal ponto, ainda, no Brasil. Mas aqui há quem defenda –em nome da justiça!– a decisão de três desembargadores paulistas de anular a condenação de 74 policiais militares pelo massacre de 111 presos do Carandiru, em 1992.

Entende-se a dificuldade técnica de identificar o autor de cada um dos disparos e quais deles foram fatais. Mas uma sociedade civilizada jamais se conformaria com tamanho fracasso do aparelho policial e judicial –a não ser, talvez, quem inconfessadamente considere que aquelas 111 vidas nada valiam.

Não seria impossível, por outro lado, individualizar ou até evitar as mortes. Para isso seria preciso ter uma polícia científica aparelhada e capacitada. Seria preciso que comandantes policiais e superiores –governador e secretário de Segurança– agissem de modo racional ao lidar com rebeliões e erradicassem a superlotação dos presídios.

Seria preciso, ainda, que os PMs invasores seguissem procedimentos minimamente aceitáveis, antes, durante e depois dos disparos, como não mover corpos ou recolher cápsulas e, assim, inviabilizar a perícia.

Nada disso seria preciso, porém, se boa parte do público e dos formadores de opinião no Estado mais desenvolvido do país não fossem tão incivilizados a ponto de achar –e votar de acordo com essa convicção retrógrada– que a polícia e o Judiciário paulistas estão sempre certos quando promovem e incentivam essa e outras chacinas.