Folha de S.Paulo

Polo Norte está quase 7ºC mais quente; Sibéria esfria ainda mais


Contemple com atenção a figura abaixo. Como ocorre ao olharmos fixamente o Sol, essa imagem -em especial a enorme mancha vermelha sobre o oceano Ártico- deveria perdurar em nossas retinas mesmo quando fechamos os olhos.

O mapa baixado neste domingo (20) da Universidade do Maine (EUA) retrata em cores fortes que algo estranho ocorre neste exato momento com o clima da Terra. O Ártico, região conhecida como polo Norte, enfrenta temperaturas muito mais altas do que o normal nesta época do ano.

A escala representa o grau de anomalia das temperaturas medidas em relação à média dos anos 1979-2000. As cores quentes, do amarelo ao vermelho, indicam quanto elas se acham acima dessa linha de base; as frias, do azul ao lilás, quanto elas ficam abaixo do padrão.

Segundo a página da Universidade do Maine, o planeta como um todo está, na média, 0,39ºC acima do que se observava naquele período de 21 anos. A região tropical, onde fica o Brasil, 0,30ºC mais quente. E o Ártico, pasme, 6,73ºC acima do normal.

O inverno ártico já começou, e o sol deixou de se erguer no horizonte. Em meio à escuridão, as águas do oceano -não há um continente no polo Norte, como a Antártida no polo Sul- se resfriam e se solidificam, expandindo a calota de gelo boreal.

Esse recongelamento está acontecendo em velocidade menor que o usual para esta época do ano. Claro que tem de acontecer exatamente isso quando tudo por ali está mais quente que o normal.

Outra consequência óbvia é a diminuição da espessura do gelo formado. Este, por sua vez, derreterá mais depressa quando chegar o próximo verão ártico, em meados de 2017.

No auge do último verão, ali pela metade de setembro, a calota polar do norte se reduziu bem mais que a média apurada nas três décadas entre 1981 e 2010, como se pode ver nesta outra figura.

A linha cheia em cinza escuro resume os dados médios da extensão do gelo, em milhões de quilômetros quadrados, entre os anos 1981 e 2010, período tomado como período de referência. A tracejada em verde mostra o que aconteceu em 2012, ano do recorde de diminuição da calota.

A curva azul representa o comportamento do gelo neste ano de 2016. Embora o encolhimento tenha sido pior que a média, não foi o bastante para bater a marca de quatro anos atrás. Repare, porém, no que aconteceu a partir de meados de outubro: a velocidade de recuperação da calota diminuiu muito.

Por quê? Não é fácil dizer. Isso pode acontecer, por exemplo, quando tormentas muito fortes levam grande quantidade de ar relativamente mais quente do sul para o norte, mas não foi este o caso.

Outra explicação possível tem a ver com a corrente de jato (o "jet stream" de que falam tanto as previsões do tempo nas TVs americanas). Esses ventos de altitude (7 a 12 km acima do nível do mar) sopram de oeste para leste e influenciam a meteorologia sobre a América do Norte, a Europa e a Ásia, no hemisfério Norte.

Voltando agora ao mapa da Universidade do Maine, note a grande mancha lilás acima do borrão vermelho no Ártico. Ela indica um grande bolsão de ar mais frio que o habitual na Sibéria, que não é bem conhecida por ser um lugar quente -quem viver por lá corre sério risco de virar picolé.

A corrente de jato tem um formato ondulado, e esse contraste entre o oceano Ártico e a região da Sibéria sugere que os altos e baixos da "jet stream" podem estar, bem, mais altos e mais baixos que o costume.

Uma língua se alonga para o norte e permite a intrusão de um monte de ar mais quente no polo Norte. Outra língua se alonga para o sul e leva com ela massas de ar gélido para território siberiano.