Folha de S.Paulo

Brasil poderia liderar bioeconomia, não fosse a mentalidade fóssil


O Brasil é o primeiro país na fila do bonde da história econômica que está passando à frente: a descarbonização. E cada vez mais rápido, como se pode ver pela entrada em vigor recorde do Acordo de Paris –menos de um ano.

Para quem não ouviu falar de descarbonização: trata-se de livrar a produção de bens e serviços dos combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural). E, também, de outras coisas que agravam o efeito estufa, como o metano produzido em lixões.

Em nenhuma outra parte do mundo são tão boas as condições para que a chamada economia verde seja de fato verde, não só uma metáfora: maior floresta tropical do mundo, milhões de quilômetros quadrados de terras cultiváveis, abundância de água e luz, tecnologia agrícola própria e agronegócio pujante.

O tema foi amplamente debatido na quarta-feira (23) no Fórum Desenvolvimento e Economia de Baixo Carbono, promovido pela Folha, pelo Instituto Escolhas e pelo Insper.

Primeira constatação: não é nada trivial a tentativa de trazer à tona esses temas de médio e longo prazo –que tipo de economia vamos ter no Brasil para não perder a Quarta Revolução Industrial em curso no século 21– quando o país está chafurdando nas agendas dos séculos 20, 19 e 18.

No que diz respeito ao século passado, ainda falta resolver os percalços da modernização incompleta, ou imperfeita. As instituições se fortaleceram nas últimas duas décadas, mas ainda não o bastante para erradicar a corrupção e todos os seus correlatos.

Dos favores estatais a empresários escolhidos para capitanear um desenvolvimentismo anacrônico ao parasitismo voraz das corporações sobre as receitas públicas, não têm faltado por aqui fatores para produzir a crise fiscal terminal em que se encontram os governos dos três níveis. Como pode o Estado prover educação, saúde e segurança quando não tem com que pagar salários?

Do século 19 vem o legado da desigualdade social, filha da escravidão tardiamente abolida, e de uma estrutura fundiária concentradora, baseada na apropriação de terras públicas pelos mais fortes. Se na primeira algo começou a mudar com políticas como o Bolsa Família, a segunda ainda conta com a força da bancada ruralista no Congresso, como se pode ver pelas sucessivas vitórias obtidas em torno do Código Florestal.

O que nos leva direto para o século 18, se não para o 16: os brasileiros continuam viciados em desmatamento, como nossos pais fundadores portugueses.

Apesar da queda acentuada nas taxas de destruição da Amazônia desde 2005, ela volta a crescer e a preocupar –sobretudo agora que o cumprimento de nossos objetivos para o Acordo de Paris tanto dependem de contê-la para reduzir as emissões de carbono.

O Brasil deveria estar discutindo como aproveitar suas vantagens para liderar a bioeconomia, a energia eólica (ventos) e fotovoltaica (luz solar), a integração entre lavoura, pecuária e floresta. Se afunda, porém, no debate constrangedor –ainda que necessário e urgente– sobre o apartamento do Geddel, o sítio do Lula, a delação do Marcelo.

Estamos, como de hábito, dormindo no ponto.