Folha de S.Paulo

Presidente americano evita o príncipe para fugir de preleção sobre ambiente


Esta coluna procura os especialistas que, antes da posse de Donald Trump, apontavam equívoco em tomar ao pé da letra tudo que prometia o candidato. Trump instalou na Casa Branca uma máquina ""movida a combustíveis fósseis"" de triturar expectativas racionais.

Nem é o caso de recapitular o pelotão de fossilistas (lobistas do petróleo e do carvão) que Trump escalou para exterminar a regulação ambiental em seu país. Já não trará surpresa se ele acabar com a agência EPA e tirar os EUA do Acordo de Paris.

Depois de procurar encrenca com o México e a Austrália (para não falar da penca de países muçulmanos afrontados por seu decreto de imigração), ele já prepara confusão com o Reino Unido.

O presidente dos EUA vai fazer uma visita de Estado a Londres, mas não quer se encontrar com o príncipe Charles. Já mandou o recado. Deve ser receio de enfrentar uma carraspana do herdeiro do trono sobre aquecimento global.

Não é de hoje que Charles está em campanha pelo ambiente. Quando começou, suas opiniões verdes eram arroladas na coluna das excentricidades principescas. Hoje está em linha com o que há de mais avançado em matéria de previsões sobre economia e tecnologia.

Charles acaba de lançar um livrinho com o título "Mudança do Clima", pela série de obras básicas Ladybird. Seus coautores são Emily Shukburgh, pesquisadora do Serviço Antártico Britânico (o lendário BAS), e Tony Juniper, ambientalista.

"Os níveis mundiais de dióxido de carbono são agora mais de 40% superiores aos de 1750, no início da Revolução Industrial, quando estavam em cerca de 280 partes por milhão", escreve o trio. "Em junho de 2016, [...] superavam 400 partes por milhão."

Conter a emissão de gases do efeito estufa como o CO2 é o objetivo do Acordo de Paris, que tem o apoio de Charles mais toda a torcida do Arsenal e do Manchester. Trump está contra, mas corre o risco de ser atropelado por um dos raros conselheiros não fossilistas de seu entorno.

O quinta-coluna é Elon Musk, o sul-africano dono da Tesla, que fabrica os carrões elétricos cobiçados por ecomoderninhos do mundo inteiro. As baterias de lítio que ele instala nos bólidos já chegam também à distribuição de energia elétrica.

Além de lançar versões peso pena para uso doméstico (Powerwall), Musk entregou os pesos pesados Powerpacks a concessionárias da Califórnia para substituir termelétricas a gás. O papel das superbaterias é armazenar a energia renovável (eólica e fotovoltaica) produzida de dia para suplementar a rede no pico de consumo da noite.

O preço de baterias e painéis solares cai vertiginosamente. Há estudos prevendo que as fontes alternativas e limpas de energia reduzirão a demanda por petróleo já a partir de 2020, quando esta pararia de crescer.

Musk é um visionário com o dom de realizar suas visões. Mas não foi capaz de prever que clientes começariam a suspender encomendas do Modelo 3 em protesto pelo fato de ter aceitado participar logo de dois conselhos de Trump (economia e manufatura).

Se quisesse impressionar Charles, Trump poderia levar Musk (e sua credulidade na razão alheia) para uma visita à Clarence House. Mas não é essa a xícara de chá do americano, como diriam os súditos de sua alteza.