Folha de S.Paulo

Médicos australianos detonam vitaminas, florais e homeopatia


No Brasil, não teria talvez grande repercussão um programa de TV arrasando com vitaminas, florais, suplementos e companhia. Na Austrália, causou furor.

A homeopatia é uma das 50 especialidades médicas reconhecidas em Pindorama, e seus medicamentos diluídos até a 0,00002a parte, quando não há mais nenhuma molécula do princípio ativo presente, integram a farmacopeia oficial brasileira.

A fosfoetanolamina, vulgo "pílula do câncer", consome recursos do contribuinte paulista num teste clínico milionário pelo Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp). A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) tolera que a "phospho" seja vendida como suplemento alimentar.

Isso não quer dizer que os consumidores australianos sejam menos crédulos que os brasileiros, por certo. As farmácias de lá estão cheias de embalagens coloridas das empresas Swisse e Blackmores, que chegam a representar 70% do faturamento das lojas especializadas em remédios com descontos.

O programa "Four Corners", da TV pública ABC (Australian Broadcasting Company), dedicou 45 minutos a desancar esses produtos enganadores. Assista aqui (ab.co/2kNzg7m) e divirta-se com o sotaque "aussie"

A frase que correu o mundo partiu de Michael Gannon, presidente da Associação Médica Australiana: "O que muitos australianos têm é urina muito cara". Em outras palavras, as pessoas estão comprando produtos inócuos, que passam por seus corpos sem surtir efeito algum.

A origem da pauta do programa parece ter sido uma incursão investigativa do grupo de defesa dos consumidores Choice, um mês antes. A ONG enviou supostos consumidores a 240 farmácias para se queixarem de estresse, e nove entre dez deles receberam recomendações de suplementos sem eficácia comprovada cientificamente (embora alguns afirmassem o contrário no rótulo).

Nada contra as pessoas gastarem seu dinheiro com coisas inúteis. É um direito delas. Esta coluna não tem a menor simpatia por cruzadas racionalistas contra terapias alternativas.

Por outro lado, é animador ver médicos, cientistas e jornalistas do mesmo lado, falando verdades -se preferir, fatos apoiados em evidências- sem rebuços e sem medo de contrariar interesses estabelecidos muito além da corrupção na política.

Em tempo: este colunista ingere diariamente o fitoterápico Rhodiola rosea (com prescrição médica) e não põe a menor fé em maca peruana, barbatana de tubarão ou cogumelos do sol.