Folha de S.Paulo

Do nióbio à serrapilheira, mais adubo para a pesquisa nacional


Final dos anos 80, talvez 1987 ou 1988. Numa caminhada suarenta pela reserva Ducke, arredores de Manaus, aprendi com o visionário Antonio Donato Nobre o significado de "serrapilheira": camada fofa de detritos vegetais, sobretudo folhas, que recobre o solo pobre da floresta amazônica e sustenta sua exuberância alimentando raízes e sementes.

Uma revelação, quase uma epifania: a mata aduba a si própria. Três décadas depois, dou com a palavra –e o conceito– no nome de uma iniciativa não menos desconcertante: Instituto Serrapilheira, a primeira entidade privada de fomento à pesquisa no país.

A novidade foi espargida por Branca e João Moreira Salles sobre a terra dura em que claudica a ciência nacional. A linguista e o documentarista, de uma das famílias mais ricas do Brasil, criaram um fundo de R$ 350 milhões que deve render uns R$ 15-20 milhões anuais para investir em projetos de ciências naturais e matemática.

O sobrenome está mais associado ao Unibanco, mas o grosso de sua fortuna também brotou do solo, mais precisamente do subsolo, com a exploração do mineral nióbio. Diante do patrimônio de João e Branca, na casa da dezena de bilhões de reais, pode parecer pouco separar R$ 350 milhões para uma causa bem-vista. Não é.

Não é pouco fazer o que quase nenhum brasileiro rico faz. Nas universidades americanas, tropeça-se em prédios e institutos inteiros pagos por ex-alunos que se deram bem na vida (pouco importa se têm incentivos fiscais para tanto). Aqui, a Faculdade de Direito da USP viu retiradas as placas com os nomes de doadores que ajudaram a reformar algumas salas.

Não é pouco contribuir para tirar todos os anos, que seja, 15 cientistas brasileiros felizardos do inferno burocrático em que vivem, se cada um for agraciado com R$ 1 milhão para gastar como quiser. Sem ter de preencher formulários que não fazem sentido, escrever relatórios que ninguém lerá ou reunir notas fiscais que vão dormir nalguma pasta poeirenta.

Não é pouco vir a público para dizer que o objetivo da doação é "fertilizar a terra da ciência brasileira", que afinal já deu muitos frutos, ainda que nenhum Nobel. Cotejados com o bilionário orçamento anual da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), por exemplo, R$ 15 milhões por ano é fichinha; na paisagem estorricada do investimento privado em ciências naturais, é um maná.

Há muitos seres pequenos –bactérias, fungos, insetos– que vivem na serrapilheira e realizam o trabalho incessante de decompor e devolver para consumo os nutrientes presentes na maçaroca vegetal. Sem eles não se ergueriam até o dossel da floresta nem floresceriam os ipês e os piquiazeiros, coisa muito bonita de ver.