Folha de S.Paulo

Estatísticas 'criativas' distorcem percepção sobre agronegócio nacional


O Brasil está doente, e sua opinião pública se anestesia diante da torrente diária de inverdades. Alguns fazem vista grossa por medo de ver balançar o barco das reformas (como se já não estivesse a pique), outros desviam os olhos com enfado.

A Presidência da República mente em nota oficial sobre viagem de Michel Temer (PMDB) em avião de Joesley Batista (JBS) e se desmente no dia seguinte. Gilmar Mendes (TSE) nega para Temer a tese que brandiu contra Dilma Rousseff (PT).

O BNDES lulista inventou que o dono do jatinho era o que havia de mais avançado no agronegócio e merecia ser promovido a campeão nacional. Mas o astro da corrupção ocupa o topo de uma cadeia produtiva que finca raízes no que há de mais atrasado, a pecuária devastadora.

Ninguém nega que o setor agrícola cresceu em produtividade e eficiência, nem que seja o esteio atual do mísero crescimento do PIB e do superavit comercial (embora seja lícito enxergar aí, também, o desastre no setor industrial, mas passe).

Foi o que sustentou Evaristo Eduardo de Miranda, chefe da Embrapa Monitoramento por Satélite (Campinas, SP), no artigo "Agricultura Lidera Preservação no Brasil", publicado segunda-feira (5) –Dia Mundial do Meio Ambiente– no jornal "O Estado de S. Paulo".

Miranda, um pesquisador controverso na área de sensoriamento remoto, afirma duas coisas incríveis no texto. A primeira é que 66% do território nacional estão preservados, chegando a 75% se aí se incluírem pastagens naturais do Pantanal, da caatinga e do cerrado.

Ele também sustenta que proprietários rurais preservam mais vegetação natural do que unidades de conservação (UCs, categoria na qual se incluem também terras indígenas, TIs). Nas contas de Miranda, seriam respectivamente 20% e 13% da área do Brasil.

No primeiro caso, o dado conflita com estimativa feita pelo IBGE em 2012 de que 38% do país estavam devastados. Vá lá, pode ser decorrência de metodologias divergentes (Miranda usou como fonte principal o CAR, cadastro ambiental rural com informações fornecidas pelos próprios donos das terras).

O argumento, porém, recebeu crítica frontal de especialistas. "Não há artigos científicos que sustentem a afirmação do dr. Miranda de que 'a vegetação preservada [do Brasil] chega a quase 75% do território nacional' ", escreveram Gerd Sparovek, do GeoLab da USP, e Luís Fernando Guedes Pinto e Frederico Machado, do Observatório do Código Florestal, em artigo que chegou ao colunista.

"Miranda usou de 'estatística criativa' para chegar aos tais 75%."

Igualmente intrigante é a cifra de meros 13% do território protegido nas unidades de conservação. Segundo o "Atlas da Agropecuária Brasileira", desenvolvido pela ONG Imaflora em parceria com a Esalq-USP, seriam 27%.

Peculiaridade flagrante: em 2009, Miranda defendia o argumento oposto, de que havia terras demais imobilizadas para preservação. Dizia, então, que apenas 29% do território brasileiro estaria disponível para a agropecuária.

Só há contradição na superfície. Seu tema de fundo é atacar a criação de novas UCs e TIs e a responsabilização de proprietários, a partir do CAR, por desmatamento ilegal –precisamente a pauta preferida da bancada ruralista que hoje manda no Congresso e no país.