Folha de S.Paulo

Retrocesso ambiental segue sucesso ruralista nos governos Dilma e Temer


Bastaram 50 dias sem chuva em São Paulo para espalhar uma epidemia de tosse e problemas respiratórios. O reservatório Cantareira e outros estão em boa situação, mas restou evidente que uma seca pode ter outros efeitos adversos, além do desabastecimento de água.

Países da Europa meridional e central enfrentam neste momento uma onda de calor –já apelidada de Lúcifer– que promete bater a de 2003, na qual morreram 35 mil pessoas, a maioria na França. Agora padecem moradores e turistas na Itália, Suíça, Hungria, Polônia, Romênia, Bósnia, Croácia e Sérvia.

Quase quatro quintos do território de Portugal esteve sob seca grave ou extrema no mês de julho, a 11ª pior estiagem no país em nove décadas. Ainda ardem na memória dos portugueses o incêndio florestal na região de Pedrógrão Grande, que ceifou pelo menos 64 vidas na segunda quinzena de junho.

Na Índia, Bangalore, um polo de alta tecnologia, sofre com a estiagem, que ameaça a distribuição de água. A região, que já teve centenas de lagos, conta com hoje 81 deles.

Em agosto de 2012, informa reportagem de André Borges no jornal "O Estado de S. Paulo", o reservatório de Sobradinho (BA), o maior do país com seus mais de 4.000 km2, estava com 38% da capacidade preenchida. Aí principiou a sucessão de anos de seca que drenou a esperança do Nordeste. Hoje a represa tem 10% de reservação. O fluxo para irrigação reduziu-se a 550 metros cúbicos por segundo, o pior desde a inauguração em 1979.

Outra reportagem de Borges indica que o rio Tocantins também está minguando. O lago da usina hidrelétrica Serra da Mesa se acha com meros 11% de seu volume original. Se não houver corte na vazão, estará ameaçada a operação de duas outros barragens geradoras a jusante, Estreito e Tucuruí.

No caso brasileiro, as estiagens na Amazônia e no Nordeste estão associadas com anomalias na temperatura dos oceanos Atlântico e Pacífico, como o forte El Niño de 2015-16. E existe entre 35% e 55% de risco de que ele retorne no final deste ano ou no início de 2018.

Outra hipótese, cada vez mais fortalecida, é que essas secas e ondas de calor devastadoras –além da própria intensidade e frequência aumentada de El Niños– sejam produto, ao menos em parte, do aquecimento global. Fazer essa atribuição de causa e efeito, contudo, é uma das maiores dificuldades vividas pelos estudiosos do clima.

Três pesquisadores da Universidade de Connecticut (EUA) se debruçaram sobre a seca de 2016 na Amazônia. Amir Erfanian, Guiling Wang e Lori Fomenko concluíram que apenas o El Niño é insuficiente para explicar a intensidade do estresse hídrico enfrentado pela floresta equatorial no período, mais intenso do que o ocorrido nas recentes secas de 2005 e 2010.

Os autores do estudo sugerem que devem estar em ação outros fatores para agravar a falta de chuvas, como o desmatamento (em alta nos últimos dois anos) e o próprio aquecimento global.

Há sete e 12 anos, ganharam o mundo imagens de barcos encalhados nos rios amazônicos. Agora, ninguém parece ligar muito.

A indiferença com tal retrocesso é diretamente proporcional ao sucesso da bancada ruralista em retroceder –nos governos Dilma e Temer– tudo que fora conquistado na área ambiental em anos anteriores.