Folha de S.Paulo

Estará assim explicada a jabuticaba?


Precisaria de um estilo próprio para escrever sobre jabuticabeira, que o leitor visse e sentisse o gosto da fruta na boca, na hora. Vejam se reconhecem a fruta na linguagem dos especialistas: "Myrciaria jaboticaba e Myrciaria cauliflora. Apresenta tipos diferentes em diversas regiões. É uma árvore de tamanho médio, porte piramidal, vistosa". Entenderam? Sabem o que é uma jabuticaba? Depois explicam a poda e os pulgões. Definitivamente não é assim que se explica assim uma jabuticaba.

Ela é épica. Há que haver uma suspensão de realidade antes de começar a escrevê-la com muita reverência. Se aquela árvore negra existe todo o resto pode existir. Ver a jabuticabeira é ver pela primeira vez. Ou é o fim do caminho. Ou a chegada. O abrigo.

Diante dela não é possível a discórdia, a negação, a afirmativa. Ela é.

Da mesa do café enxergo a minha, que plantei num arrepio de mineiridade quando já não era provável que a visse crescer. Mas cresceu, e nesse ano seco não foi regada. Olhando de perto ela se esforçou, não vai dar um caminhão de frutinhas, talvez um prato. Chupei umas tantas que se comportaram como todas as jabuticabas. Algumas se mostram bem grandes, você colhe aquelas. Subitamente as pequenas desprezadas tornam-se grandes, em comparação com aquelas outras pequenas enfezadas. Você, feliz da vida com a descoberta, chupa aquelas e eis que as enfezadas já parecem grandes...

Há conclusões filosóficas sobre a relatividade do tamanho das frutas desejadas, até isso se acha numa jabuticabeira.

E continuam os técnicos: "as folhas são opostas, lanceoladas, mais curtas na variedade Sabará (murta no sul de Minas). Nas brotações novas são avermelhadas". Gente, estará assim explicada a jabuticaba? "As flores são brancas e quase sésseis, localizadas ao longo do tronco e dos galhos amadurecidos." Meu Deus!

Ao descrever uma jabuticabeira você tem que ser uma, em absoluta fusão com ela, senão não dá. Acho que Pedro Nava conseguiu e Monteiro Lobato, de certo modo, também. Pois todos, todos se lembram da música da jabuticabeira. Tloc! Pluf! Nhoc! Tloc! Pluf! Nhoc!

E Pedro Nava: Eram vinte e quatro pés, plantados aos pares, uma ala no meio e o encontro ogival de seus galhos fazia uma abóbada toda verde e rendada por entre cujos nervos e arquitraves o sol mal entrava. Minha avó, como quem distribui prebendas, dava um pé a cada favorito seu —para bel prazer e usufruto. Os amigos dos amigos e as jabuticabeiras permaneciam forradas, cobertas de jabuticabas, daquela frutificação, daquela coma negra enrolada— como se não tivessem sido tocadas. Sobravam, acabavam caindo no chão e as negrinhas empurravam tudo para apodrecer junto ao tronco, para impregnar a terra, tornar a descer e voltar a subir no outro ano como calda incorruptível, como seiva nutriz, circulante e perene. 

Bom, nem eles. Pegaram uma fração da fruta ou da árvore. Já desconfio que não é possível traduzi-la em letras, só retratá-la. Queria mesmo é que Caminha a tivesse visto e mandado a descrição ao rei. E tenho certeza que a chamaria de cereja preta, ou se estivesse num mau dia de inhame.