Folha de S.Paulo

Projeto Manhattan antimosquito


Vamos começar com o óbvio: é inadmissível que os habitantes de um país como o Brasil de hoje continuem morrendo de medo do mesmo mosquito que aterrorizava seus bisavôs no começo do século 20. É ridículo que todo santo verão seja preciso assistir às mesmíssimas propagandas televisivas sobre jogar fora a água parada em pneus, garrafas e vasos –aparentemente sem o menor resultado. Precisamos de um Projeto Manhattan contra o Aedes aegypti.

"Projeto Manhattan", caso você não saiba, era o nome do esforço multidisciplinar que, durante a Segunda Guerra Mundial, levou à criação da bomba atômica nos EUA. O ataque maciço contra o mosquito da dengue (e do vírus zika) de que necessitamos não seria nem de longe tão bélico nem tão caro.

O que já está claro há tempos, no entanto, e o que ficou ainda mais ululante depois do trágico avanço dos casos de microcefalia associados ao zika no país, é que os esforços "picados" –borrifadinhas de veneno aqui, mutirões para retirada de lixo acumulado acolá– nunca vão resolver o problema para valer.

Com um esforço concentrado e inteligente de pesquisa aplicada, por outro lado, é bem possível que o cenário mude de figura. De quebra, o sucesso poderia gerar ondas de choque que mudariam não só a saúde pública do Brasil como também partes importantes de nossa economia e de nossa forma de fazer ciência.

Para começar, ao menos no papel, temos "muque" científico para chegar lá. Projetos genômicos de grande escala que aconteceram nas últimas décadas ajudaram a capacitar muitos laboratórios de pesquisa país afora para a tarefa de decifrar a diversidade genética de vírus e pacientes e entender como um novo patógeno, como o zika, interage com um organismo de seus hospedeiros.

Além disso, nossos avanços na área de células-tronco também têm sido consideráveis –inclusive possibilitando a criação de "minicérebros" a partir de células humanas, os quais provavelmente são as plataformas ideais para testar como o zika afeta o desenvolvimento neuronal, conforme apontou o biólogo Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia em San Diego.

Gerar conhecimento, porém, não adianta muito se as barreiras para transformá-lo em prática são quase intransponíveis. Tentativas de diminuir a população do A. aegypti por meio da liberação de mosquitos transgênicos ou contaminados por uma bactéria que o impedem de transmitir o vírus da dengue andam esbarrando na burocracia federal –e o mesmo vale para as dificuldades ridículas que os pesquisadores brasileiros ainda enfrentam para importar insumos de laboratório. Eliminar esses entraves aumentaria consideravelmente o arsenal antimosquito sem gastar um único centavo.

É claro que não há solução mágica. Nenhuma vacina produz imunização 100% eficaz e segura; mosquitos transgênicos precisam ser constantemente reintroduzidos na natureza; até o melhor inseticida perde eficácia conforme a seleção natural vai favorecendo a multiplicação dos mosquitos resistentes.

Mas um esforço focado criaria as condições para que novas estratégias continuassem a ser geradas e aplicadas –até porque novos patógenos tropicais continuarão causando sustos num mundo tão conectado quanto o nosso. Mas dá para ficar preparado se deixarmos de lado a miopia de só pensar nas garrafas PET do terreno do vizinho.