Folha de S.Paulo

Lições do vírus


Enquanto escrevo este texto, o elo entre o aumento dos casos registrados de microcefalia no Brasil e o vírus da zika parece cada vez mais plausível, ainda que não esteja 100% comprovado.

Falta, por exemplo, elucidar como o patógeno seria capaz de afetar o desenvolvimento cerebral durante a gestação. Se ainda é cedo para ter uma noção clara do impacto do vírus, o mesmo não se pode dizer de algumas lições sobre da epidemia, que o Brasil e o mundo já deveriam estar assimilando.

A primeira é também a mais sombria e complexa: não espere que o zika seja o último patógeno relativamente desconhecido a ganhar, de repente, status de ameaça global.

O mundo que criamos nas últimas décadas é um boca-livre de proporções planetárias, visto da perspectiva de parasitas microscópicos que precisam do corpo quentinho de um mamífero para se propagar.
Um dos motivos para acreditar que o século 21 é a Terra das Oportunidades para patógenos emergentes é a crescente degradação ambiental que afeta ecossistemas tropicais de toda parte.

O nome do vírus que hoje preocupa a América Latina vem, não por acaso, da floresta tropical de Zika, em Uganda. Ainda não se sabe qual animal era o reservatório das formas originais do vírus na natureza, mas cada nova onda de desmatamento na África, na Amazônia ou na Indonésia aumenta as chances de que, tal como ocorreu com o zika no passado, bichos domésticos e seres humanos entrem em contato com parasitas que nunca tinham encontrado o nosso organismo de primata bípede antes.

Mais importante ainda, tais locais muito provavelmente abrigam a maior diversidade de patógenos do planeta, já que também são os locais mais ricos do mundo em espécies animais.

Nos primeiros "contatos imediatos", faz sentido imaginar que há uma espécie de empate técnico evolutivo. Se, de um lado, membros da nossa espécie nunca tinham sido infectados pelo vírus/bactéria/protozoário da floresta e, portanto, não haviam desenvolvido defesas específicas contra ele, o invasor microscópico tampouco está adaptado a se aproveitar dos recursos presentes nas células do Homo sapiens.

Em outras palavras, não é fácil invadir uma casa se você não conhece a porta, ainda que destrancada.

No entanto, trata-se de uma disputa assimétrica. Enquanto um ser humano precisa de décadas para ir do útero à idade reprodutiva, até os patógenos mais lerdos necessitam de umas poucas horas para que uma geração transcorra.

Ou seja, novas cópias do material genético deles são produzidas a uma velocidade estonteante, o que aumenta as chances de que mutações produzam uma nova variedade, finalmente dotada dos "superpoderes" necessários para colonizar o corpo humano.

Os riscos desse cenário são potencializados pela facilidade e rapidez do sistema planetário de transportes, certamente responsável por trazer o vírus da zika até aqui.

As implicações são claras: se a ideia é se preparar para as epidemias do futuro, o melhor caminho é evitar a degradação ambiental e investir em conhecimento básico sobre os patógenos da floresta. Sem essa visão estratégica, a sensação de enxugar gelo em meio a uma tragédia continuará a caracterizar as "zikas" que virão.