Folha de S.Paulo

Coisa da sua cabeça


Nunca é demais lembrar que os praticantes da ciência não pertencem a uma nobre e infalível estirpe de habitantes de torres de marfim. São gente como nós –e gente, como bem sabemos, às vezes fica repetindo bobagem. Exemplo gritante: até pouco tempo atrás, muitos biólogos tratavam como fato as estimativas de que pelo menos 10% dos bebês humanos seriam fruto daquela proverbial pulada de cerca, sendo criados por homens que não são seus pais verdadeiros.

É um número bastante expressivo, lógico, embora alguns especialistas afirmassem que tamanho grau de infidelidade faria sentido do ponto de vista biológico. Entre outras espécies ostensivamente monógamas (certas aves são o exemplo mais bem estudado), o adultério é relativamente comum, por razões que a teoria da evolução é capaz de elucidar sem grandes dificuldades.

Aos machos, interessa semear em campo alheio (repare no refinamento da metáfora) porque espermatozoides são baratos de produzir, e um rápido namorico é suficiente para espalhar descendentes do Casanova emplumado em tudo quanto é ninho da floresta. No caso das fêmeas, enquanto o maridão ajuda no sustento da casa e nos cuidados com a prole, genes de alta qualidade de um passarinho conquistador podem produzir bebês fortes e tão sedutores quanto o pai, o que também é um ótimo investimento no sucesso reprodutivo de longo prazo.

Muita gente achava que o cenário era o mesmo no caso do Homo sapiens. Mas as estimativas da prevalência de bebês ilegítimos (de até 30%!) originalmente vinham de testes nos quais a paternidade "oficial" já estava sendo questionada, o que introduzia um viés no debate, lógico –com uma suspeita presente desde o começo, talvez aquela amostragem de crianças contivesse uma proporção anormalmente alta de filhos de terceiros.

Quando amostragens mais amplas foram estudadas, a proporção caiu para apenas 1%. Alto lá, gritaram os que ainda se aferravam às estimativas mais altas: em populações dos dias de hoje, com amplo acesso a métodos anticoncepcionais confiáveis, seria natural que as mulheres que traíam os maridos se precavessem com especial cuidado.

É aí que entram em cena métodos engenhosos de testar a paternidade adúltera ao longo do tempo. Quase todos eles são uma variante do seguinte método: em tese, tanto o papai quanto o vovô e seu netinho deveriam ter a mesma versão do cromossomo Y, a marca genética da masculinidade, transmitida apenas pelo lado paterno desde a aurora dos tempos. Agora, procure uma população a respeito da qual existam registros genealógicos confiáveis. Se ninguém anda paquerando com sucesso a mulher do vizinho, homens que possuem o mesmo sobrenome e remontam ao mesmo ancestral terão o mesmo cromossomo Y, no máximo com ligeiras mutações.

Esse tipo de técnica foi aplicada recentemente à análise do DNA de moradores da Bélgica, do norte da Itália, da Catalunha, das colônias holandesas da África do Sul e do Mali. Resultado? Nos últimos 500 anos, a taxa de bebês gerados por relacionamentos infiéis ficou em torno de 1% por geração.

A comédia de erros acima está registrada em artigo na revista científica "Trends in Ecology & Evolution", assinado por Maarten Larmuseau, da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica.