Folha de S.Paulo

Alemanha pré-histórica teve batalha com espadas à moda Game of Thrones


O rio que serpenteia pelo solo pantanoso do norte da Alemanha é conhecido hoje como Tollense, mas ninguém faz a menor ideia de qual era o seu nome 3.200 anos atrás, quando centenas de guerreiros e diversos cavalos foram massacrados a flechadas, golpes de espada e de machados nas suas margens.

Trata-se de uma saga que os arqueólogos estão apenas começando a decifrar, mas as primeiras pistas indicam que a batalha no Tollense poderá levar a uma revisão profunda do que achávamos que sabíamos sobre complexidade social e guerra na Europa pré-histórica –sim, pré-histórica, já que os exércitos eram de culturas que não dominavam a escrita.

O que aconteceu no vale do rio alemão, num ponto uns 120 km ao norte de Berlim, começou a vir à tona em 1996, quando um arqueólogo amador descobriu por acaso um osso do antebraço na encosta do rio –osso que, conforme se descobriu mais tarde, tinha como "enfeite" uma ponta de flecha de pedra. A partir de 2009, institutos de pesquisa da Alemanha começaram a escavar por lá a sério, trabalho que continuou até 2015, conforme relata reportagem no site da revista especializada "Science".

O resultado desses anos de esforço foi desenterrar todo um campo de batalha que parece ter sido inventado por sujeitos como J.R.R. Tolkien (de "O Senhor dos Anéis") ou George R.R. Martin (de "Game of Thrones"). No mínimo 130 sujeitos com idade entre 20 e 30 anos (o número completo provavelmente é bem maior) foram jogados já mortos, ou então se afogaram, em trechos relativamente rasos do rio.

Há indícios de que a matança aconteceu de uma vez só, talvez num único dia –como o fato de que mais de mil ossos, entre eles 20 crânios, foram achados num espaço de apenas 12 metros quadrados. O pedaço do rio de que estamos falando ficava num vale estreito e era atravessado por uma ponte, o que levou os arqueólogos a especular que o que estava em jogo era justamente a travessia nesse ponto estratégico –mais ou menos como a célebre batalha das Termópilas, entre gregos e persas, em 480 a.C.

Além das mortes acusadas por pontas de flecha de bronze e pedra, os pesquisadores identificaram ainda golpes de lança, de porretes parecidos com tacos de beisebol e de machados de bronze (o uso do ferro ainda não se generalizara). As armas também foram achadas, assim como anéis e adornos de ouro que os guerreiros provavelmente usavam nos cabelos. No total, considerando as taxas usuais de baixas nesse tipo de conflito, 5.000 soldados ou mais podem ter participado da refrega.

E daí? Daí que esse cenário não parece combinar nem um pouco com a aparente falta de organização política e militar que predominava na Europa dessa época. O equipamento dos homens lançados ao rio sugere a presença de uma classe guerreira "profissional" e bem treinada. De quebra, análises da composição química de seus dentes indicam que vários deles não eram nativos da região, mas vieram do sul da Europa. Daí a comparação com a guerra de Troia, que teria acontecido mais ou menos na mesma época e também teria reunido diversos grupos guerreiros numa única grande expedição.

É possível até que os achados ajudem a entender como outros bandos de guerreiros da época contribuíram para o fim da Idade do Bronze ao atacar o Egito e outros impérios na mesma época. O Exército dos Mortos de Tollense mal começou a falar.