Folha de S.Paulo

A civilização do pescado


Quem come pirarucu, nem que seja uma vez só, dificilmente se esquece. Eu devia ter cinco ou seis anos de idade quando meu avô materno apareceu com o peixe em casa, depois de uma temporada pescando com os amigos "em Mato Grosso" (desconfio que nem ele soubesse bem onde). Não me peça para descrever o sabor dos filés; só sei que era bom demais. Portanto, não me surpreendi nem um pouco ao ler que, segundo arqueólogos brasileiros, toda uma civilização complexa da Amazônia pré-histórica teve como base a arte de capturar e consumir pirarucus.

OK, talvez eu esteja exagerando um tantinho – além dos pirarucus, os indígenas que criaram um grande assentamento fluvial durante o que seria a Idade Média europeia também apreciavam outras espécies que ainda são astros da culinária amazônica moderna, como os tambaquis, pintados e surubins. A questão central, porém, é justamente a eficiência e a magnitude da atividade pesqueira na região: em vez de dependerem da agricultura, como quase todos os demais povos que criaram sociedades densamente povoadas e complexas nos últimos milênios, o grupo de que falamos conseguiu esse feito com base na exploração de recursos aquáticos.

Tais descobertas, relatadas em artigo na revista científica "Journal of Archaeological Science: Reports", coroam décadas de trabalho paciente do arqueólogo Eduardo Góes Neves (do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP) e de seus colegas na célebre região do "Encontro das Águas", onde o fluxo barrento do rio Solimões e o caudal cor de azeviche do rio Negro se juntam para formar o Amazonas propriamente dito, nas vizinhanças de Manaus.

Entre os muitos sítios estudados por Neves e companhia está o de Hatahara, no município de Iranduba (AM). Do século 8º ao século 13 da Era Cristã, Hatahara formava um respeitável complexo de aldeias com 20 hectares de área total (um hectare corresponde mais ou menos à área de um campo de futebol) e vários milhares de habitantes. Os arqueólogos chegaram a identificar vestígios de milho, inhame e mandioca no sítio, sinal de que também havia atividade agrícola por ali, mas o que realmente os impressionou foi a análise de quase 10 mil restos de vertebrados (incluindo aí ossos, escamas, nadadeiras) encontrados no local.

Cerca de 90% dos bichos consumidos ali eram aquáticos ou semiaquáticos e, desses, a grande maioria eram peixes. Os pirarucus capturados chegavam a 100 kg e correspondem a nada menos que um quarto dos peixes deglutidos pelos antigos indígenas (e, se formos considerar a massa de carne, a mais da metade do peso total do pescado presente no sítio).

A predileção por esse monstro do rio não evitou, porém, que outros 36 tipos de peixes fossem capturados pelos moradores – uma diversidade sem precedentes em sítios arqueológicos da América do Sul. Répteis semiaquáticos também eram partes cruciais do cardápio – há muitos restos de tartarugas, jacarés e sucuris em Hatahara.

A variedade de peixes indica a presença de uma comunidade de pescadores extremamente hábil, capaz de explorar ao máximo os recursos fluviais. E há indícios de que as tartarugas não eram apenas capturadas, mas também criadas em cativeiro – num sítio próximo, foi achado o que parece ter sido um tanque para abrigar os répteis. Cada vez mais, parece ser um erro dos grandes imaginar os indígenas pré-1500 como gente que deixava a natureza "intocada". Boa parte da Amazônia já tinha sido tocada pela mão humana – e talvez de uma maneira mais inteligente que a devastação atual.