Folha de S.Paulo

Com a palavra, o primata


Rocky tem nome de lutador e vem de uma família musculosa por natureza, mas seu verdadeiro talento está na habilidade com as palavras –ou, pelo menos, com os fonemas. Esse jovem orangotango é o primeiro grande símio a demonstrar um controle voluntário das pregas vocais parecido com o de um ser humano, o que lhe permitiu produzir variações de som similares a algumas das vogais que falamos.

Trata-se, por enquanto, de um caso único, mas os dados sobre as habilidades peculiares de Rocky (hoje na adolescência, com 12 anos de idade) são importantes porque ajudam a suprir uma lacuna das mais chatinhas.

Acontece que, ao menos no nosso ramo da árvore genealógica dos seres vivos, as habilidades de comunicação oral pareciam ser, até pouco tempo atrás, quase uma exclusividade humana.

Apesar do comportamento complexo e da cognição avançada, incluindo a presença de tradições culturais, habilidades políticas maquiavélicas e empatia, nossos parentes mais próximos, os grandes símios (além dos orangotangos, a lista inclui gorilas, bonobos e chimpanzés), não são exatamente astros quando abrem a boca.

Além de não possuírem nada que chegue perto da sofisticação barroca da linguagem humana, esses macacões, segundo muitas pesquisas, teriam dificuldades até com o chamado aprendizado vocal - ou seja, a capacidade de aprender a emitir determinados sons com companheiros de espécie, como ocorre com as aves que aprendem a cantar com seus pais. A maioria das vocalizações dos grandes símios seria inata e pouco sujeita ao controle consciente, mais ou menos como o choro ou o riso dos bebês humanos.

O conhecimento sobre o tema estava nesse pé até entrar em cena o pesquisador português Adriano Lameira, hoje no Departamento de Antropologia da Universidade de Durham, no Reino Unido. Lameira e seus colegas se propuseram a imaginar experimentos que pudessem testar o controle consciente das pregas vocais porque essa habilidade é essencial para a produção de vogais na fala humana (e de muitas consoantes também, é claro, embora elas dependam muito da posição dos lábios e da língua, entre outros fatores).

De certo modo, Rocky parecia o voluntário ideal para essa tarefa. Morador do Zoológico de Indianapolis, no Meio-Oeste dos EUA, e então com oito anos de idade, ele tinha ficado conhecido por produzir uma vocalização característica, o chamado "wookie" (é quase o mesmo nome da espécie à qual pertence o célebre Chewbacca, hirsuto personagem da série "Guerra nas Estrelas"). Os pesquisadores verificaram que nenhum outro orangotango conhecido produzia "wookies" e ficaram animados para testar a capacidade de Rocky de imitar sons humanos.

Próximo passo: um dos membros da equipe se pôs a emitir coisas parecidas com vogais (algo como "aaaaa" e "ooooo") perto do recinto de descanso do bicho. A cada vez que repetia com sucesso os fonemas produzidos por seu parceiro humano, Rocky recebia uma recompensa (como frutas cristalizadas, que ele adora). O ponto principal era a variação de altura dos sons - como se a pessoa ficasse oscilando entre tons mais graves e mais agudos de uma canção.

Rocky se saiu muito bem, obrigado, imitando bem mais de 500 sons diferentes. Para Lameira e companhia, trata-se de um indício de que nossas capacidades linguísticas podem não ter aparecido apenas nas últimas centenas de milhares de anos, como muita gente aposta, mas foram surgindo ao longo de um processo bem mais lento e gradual, que talvez remonte à época em que nossos ancestrais ainda eram homens-macacos.