Folha de S.Paulo

Restos de remédios na urina fazem mal a micróbios 'do bem' em rios


Convoco o nobilíssimo leitor a pôr a mão na consciência, como se dizia antigamente, e começar a se preocupar com as tralhas contidas no xixi que, como sabemos, vai do vaso sanitário para a rede de esgotos e dela para os rios, quase sempre sem passar por estações de tratamento. Restos de remédios e de outros produtos na sua urina podem estar bagunçando a cadeia alimentar aquática de maneiras insuspeitas, indica um estudo publicado nesta semana.

A má notícia, revelada pelo trabalho de Francisca Fernández-Piñas e seus colegas da Universidade Autônoma de Madri na revista especializada "Science Advances", é particularmente desagradável porque os efeitos das substâncias, em doses baixíssimas, são o que os pesquisadores chamam de "não aditivos" e "não lineares".

Trocando em miúdos: se a molécula X afeta 10% dos organismos aquáticos, enquanto a molécula Y afeta 20% deles, alguém com uma visão mais simplista do problema poderia imaginar que, quando as duas substâncias são despejadas juntas nos rios, 30% dos habitantes das águas seriam afetados. Só que não é isso o que acontece: as interações entre as diferentes moléculas são complexas, e a presença de uma pode potencializar os efeitos de outra de maneiras bem diferentes da simples adição.

E repare que os resultados vieram de uma simulação relativamente simplificada do que acontece quando populações humanas lançam produtos químicos de uso pessoal em ambientes de água doce.

Os cientistas montaram uma biblioteca com 16 substâncias, como antibióticos, estimulantes (nicotina e cafeína), analgésicos e antidepressivos, numa tentativa de abranger os principais resíduos. (A grande ausência da lista é a dos anticoncepcionais, em parte porque os efeitos negativos deles sobre a saúde hormonal de peixes e anfíbios já são relativamente bem conhecidos.)

A concentração das substâncias empregada nos testes foi bastante baixa, variando entre microgramas e nanogramas por litro d'água.

Após misturar os 16 ingredientes em 180 proporções diferentes, os pesquisadores espanhóis usaram a água resultante para cultivar formas geneticamente modificadas de Anabaena, uma cianobactéria –ou seja, um micróbio aquático que faz fotossíntese, assim como as plantas terrestres. As cianobactérias estão entre os elementos básicos das comunidades biológicas do planeta e, além de servir de alimento para micro-organismos maiores, produzem elevadas quantidades de oxigênio.

Uma modificação introduzida pelos cientistas fazia as Anabaena produzirem luz em seus processos metabólicos, o que ajuda a visualizar com facilidade o estado de saúde dos micróbios. O resultado das misturas de produtos químicos? Em geral, cianobactérias menos luminosas, o que indica que elas tinham dificuldades para prosperar na água com resquícios de remédios. Algo muito parecido se deu quando as mesmas misturas foram colocadas em contato com uma comunidade natural de micro-organismos, obtida pelos cientistas no rio Llémena, a cerca de 100 km de Barcelona.

Dá para deixar de tomar analgésicos ou antibióticos? É óbvio que não, e ainda falta saber se os efeitos vistos no estudo chegam a áreas distantes dos centros urbanos. Mas é importante não fechar os olhos diante de mais uma das consequências inesperadas do impacto humano sobre a biosfera.