Folha de S.Paulo

Peixe amazônico usa mesmos genes que salamandra para regeneração


Piramboias (Lepidosiren paradoxa) são criaturas sensacionais. A etimologia do nome do bicho (algo como "peixe-cobra" em tupi) já dá pistas sobre a estranheza da criatura, mas recomendo enfaticamente que você assista a alguns vídeos ou, melhor ainda, observe uma piramboia ao vivo. Além de respirar apenas ar e de passar meses da estação seca em "animação suspensa" dentro de tocas de lama (sem água por cima), esse peixe da Amazônia e de outras regiões do Brasil tem nadadeiras fininhas e cilíndricas que mais parecem patas rudimentares.

Dá até aflição de ver –e explica por que, em inglês, o bicho também é conhecido como "peixe-salamandra". O apelido, aliás, não poderia ser mais adequado, porque as piramboias conseguem regenerar as nadadeiras cortadas, assim como as salamandras são capazes de reconstruir praticamente do zero uma pata amputada. Embora o truque regenerativo do peixe amazônico seja conhecido há décadas, novos experimentos revelaram que a semelhança com as salamandras é ainda mais profunda: são basicamente os mesmos genes que deflagram a reconstrução de membros em ambos os bichos.

Rápido parêntese: talvez você se oponha ao uso da palavra "membros" para designar meras nadadeiras. Peço, porém, que o gentil leitor mantenha a mente aberta. É que as piramboias pertencem ao grupo de peixes modernos que têm o parentesco mais próximo com os vertebrados terrestres. Isso significa que, do ponto de vista evolutivo, barbatanas e patas (ou braços) são apenas variações do mesmo tema anatômico básico.

Coube a um grupo de biólogos da UFPA (Universidade Federal do Pará) a tarefa de elucidar os detalhes bioquímicos da regeneração das piramboias. Igor Schneider, Acacio Nogueira, Carinne Costa e seus colegas começaram capturando os peixes serpentiformes na natureza e levando-os para o laboratório.

Conforme o esperado, uma proporção significativa dos bichos (sete das 37 piramboias pescadas pela equipe) tinha sinais de regeneração nas nadadeiras, muito semelhantes aos de salamandras - pode acontecer de o novo membro ter uma estrutura óssea bifurcada ou duplicada, por exemplo, o que denuncia a amputação pregressa.

Depois, os pesquisadores cortaram nadadeiras peitorais dos bichos e analisaram o que acontecia nas células e no padrão de ativação e desativação de genes das piramboias conforme o corpo delas se punha a reconstruir o membro amputado.

Resultado: cerca de dois terços dos genes que tiveram sua ativação muito alterada nos peixes que estavam recriando suas nadadeiras parecem ter a mesma função nas salamandras de pata cortada. Um detalhe particularmente curioso é a ativação elevada de genes normalmente associados ao aparecimento do câncer –o que na verdade faz sentido. Afinal, tumores surgem quando células começam a se multiplicar de maneira descontrolada, e a multiplicação celular acelerada é essencial para reconstruir um membro. Outros genes importantes conferem ao local da lesão uma espécie de "síndrome de Peter Pan" –as células conseguem voltar a um estado mais "jovem" e versátil, o que lhes permite realizar funções que normalmente não poderiam assumir.

O trabalho, publicado na revista "Nature Communications", pode indicar que a programação genética necessária para regenerar é antiquíssima, precedendo a origem dos vertebrados terrestres. Será que isso significa que essas instruções ainda estão presentes, de alguma forma, no genoma humano? Soa improvável, mas as piramboias ainda têm muito a nos ensinar sobre a mágica de reconstruir corpos.