Folha de S.Paulo

Ataques de insetos ladrões levam abelhas brasileiras a gerar soldados


Nunca fui um fã incondicional de insetos (custa-me confessar, mas tenho aquele preconceito instintivo dos bípedes contra criaturas de seis patas ou mais), mas abro uma exceção para as jataís, abelhas sem ferrão nativas do nosso país.

É sempre uma alegria inspecionar um muro velho ou um tronco de árvore e ver o tubo de cera em cuja ponta está disposto um grupinho de abelhas "porteiras", com as cabeças minúsculas voltadas para fora, de olho em tudo. Ocorre que essa cena bonitinha, na verdade, é o emblema de um épico evolutivo, uma guerra que já dura milhões de anos – e as tais porteiras são soldadas profissionais.

Essa é a principal conclusão de um trabalho de pesquisadores brasileiros e alemães, publicado recentemente na revista científica "Nature Communications" após uma análise detalhada das operárias de 28 espécies de abelhas sem ferrão do Brasil.

A equipe descobriu mais um exemplo interessantíssimo de que soluções úteis frequentemente são redescobertas pela seleção natural. Nos últimos 25 milhões de anos, a presença de abelhas-soldadas parece ter surgido em cinco ocasiões diferentes, de forma independente, entre essas espécies, provavelmente como resposta à presença de abelhas ladras que punham em risco as colmeias amantes da lei e da ordem.

Sim, abelhas ladras – embora esses insetos tenham fama de encarnar as virtudes do trabalho duro e da organização, há espécies do grupo que se especializaram em invadir o ninho alheio, saquear tudo que encontram, de comida a material de construção, e ainda matar as crias das derrotadas.

Segundo um dos autores do novo estudo, Cristiano Menezes, da Embrapa Amazônia Ocidental, tais piratas de asas, pertencentes ao gênero Lestrimelitta (abelha-limão ou iratim, em termos populares), possuem estrutura física marombada, com cabeças e pernas muito fortes.

Diante dessa ameaça, as jataís respondem fogo com fogo. Acredita-se que as abelhas com ferrão não tenham necessidade de desenvolver castas especializadas de soldadas, graças justamente à sua capacidade de picar seus inimigos, mas abelhas que não picam têm de apostar na força física.

Por isso, as guerreiras são entre 10% e 30% maiores que as operárias comuns. Essa diferença de tamanho é especialmente clara entre espécies como as jataís propriamente ditas (Tetragonisca angustula) e a Frieseomelitta longipes, popularmente conhecida como marmelada, além de ocorrer de forma mais sutil em várias outras espécies.

Além disso, no caso da marmelada e de algumas de suas parentes, as soldadas têm um "uniforme" distinto – uma sóbria coloração mais escura, talvez porque isso as torne menos visíveis na entrada da colmeia e, portanto, facilite a tarefa de agarrar invasores de surpresa.

Os invasores, de fato, parecem ser o fator-chave aqui, porque as espécies que são alvo da ação de abelhas ladras têm probabilidade quatro vezes maior de produzir soldadas especializadas (70% dos casos) do que as que não sofrem com esse problema (só 16,7% dessas têm soldadas).

E se eu lhe contasse que o estudo, que também é assinado por pesquisadores da USP de Ribeirão Preto, tem ainda interessantes implicações econômicas? As abelhas nativas estão ligadas a um mercado emergente de produtos como mel e própolis. Saber que elas possuem soldadas ajuda a estabelecer a distância ideal entre colônias (para não dar briga, é claro) e até a bolar defesas conjuntas – colocando espécies mais valentes em torno das mais frágeis, digamos, melhorando a produtividade de todas.