Folha de S.Paulo

Só economia tecnológica pode nos livrar da propinocracia extrativista


A esta altura do campeonato, imagino que ninguém –inclusive este escriba– tenha cabeça para pensar em qualquer coisa que não seja o status aparentemente moribundo do atual governo federal. (Quando você, mui gentil leitor, estiver lendo este texto, pode muito bem ser que esse status tenha passado de moribundo para cadavérico ou saudável, vai saber.)

Seja lá como termine a tragicomédia política de 2017, não consigo evitar a sensação de que ela diz muito sobre as escorregadas históricas deste país em temas como ciência, tecnologia e ambiente.

Repare como as delações que engoliram com voracidade de buraco negro tanto os governos petistas quanto o governo Temer estão associadas a empresas que representam o que há de mais velho e carcomido na cabeça econômico-tecnológica nacional.

Temos, de um lado, a boiada interminável da JBS, um negócio da China desde os tempos coloniais; de outro, o poderio de empreiteiras como a Odebrecht, as rainhas da obra faraônica com passivo ambiental idem, e da Petrobras, que deveria garantir a aposentadoria folgada de todos nós com as riquezas infindáveis do pré-sal (o que isso faria com o clima global era só um detalhe, lógico).

O que me parece mais pernicioso em toda essa ópera-bufa –além do fato óbvio de que ela foi construída sobre alicerces de corrupção e canalhice– é a adesão tácita à ideia de que não dá para fazer as coisas de outro jeito aqui: estaríamos condenados por toda a eternidade a ser o reino do boi, da hidrelétrica superfaturada e do petróleo fedido.

Repare como esse tripé da propinocracia nacional compartilha uma visão essencialmente extrativa (eu diria "primitiva", se isso não fosse uma ofensa aos povos genuinamente primitivos"¦) da atividade econômica. Derrube a floresta e jogue a boiada nos escombros; inunde milhares de quilômetros quadrados, ainda que eles possuam biodiversidade única; vamos queimar gasolina barata, ainda que isso signifique cozinhar nossos descendentes em banho-maria.

A boa notícia (sim, juro que tem uma escondida nessa história) é que dá para fazer diferente. Tem gente muito boa tentando fazer precisamente isso no Brasil. Dá para usar a floresta, inclusive a sofrida mata atlântica aqui do Sudeste, como uma imensa biblioteca natural, com recursos interessantíssimos para a indústria, desde que o sujeito seja esperto o suficiente para decifrá-los.

Dá para pensar na nossa luxuriante biomassa não apenas como fonte de combustível ou comida, mas como inspiração para novos materiais e novos produtos. Dá até para transformar emergências médicas como a epidemia de zika em usinas de conhecimento sobre como enfrentar doenças emergentes –um conhecimento cada vez mais crucial num mundo hiperconectado em que ameaças desse tipo nunca deixarão de aparecer de quando em quando.

Por tudo isso, seja num (por enquanto) improvável cenário de Diretas Já, seja nas eleições previstas para 2018, é óbvio que você deve votar em políticos honestos. Mas convém dar atenção especial aos candidatos que sejam capazes de enxergar a importância de criar um modelo não extrativo para a economia do país, baseado em geração e aplicação de conhecimento, e não em sugar recursos naturais até o caroço. Do contrário, haveremos de continuar levando vida de gado com selo Friboi.