Folha de S.Paulo

Brasileiros descobrem como ocorre preservação de olhos em fósseis


Há um charme inegável na nomenclatura greco-latina que os cientistas desenvolveram para designar seus objetos de estudo (ao menos para filólogos frustrados, como este escriba). Entre essas palavrinhas, uma que sempre me soou especialmente charmosa e pungente é "tafonomia" –em grego, algo como "a lei dos túmulos. Os processos tafonômicos são os que descrevem como os restos mortais de um animal ou de uma planta lentamente podem ir se transformando em coisa muito mais durável (às vezes com bilhões de anos de "data de validade"): um fóssil.

Qualquer forma de fossilização é para poucos –esse é um dos truísmos da tafonomia. Existe, porém, uma forma ainda mais VIP de preservação para a posteridade, na qual não apenas ossos ou dentes, mas também elementos que deveriam se decompor em questão de semanas ou meses (pele, músculos, pelos, penas) podem ser visualizados pelos paleontólogos do século 21 quase como se eles estivessem diante de um bicho que foi atropelado na estrada alguns dias antes. Nesse ponto, poucos lugares do mundo rivalizam com a nossa chapada do Araripe, um pedaço privilegiado do interior nordestino (correspondendo a trechos do Ceará, de Pernambuco e do Piauí).

Cristas de pterossauros (répteis voadores) achados no Araripe ainda deixam transparecer vasos sanguíneos; há ainda dinossauros, plantas fossilizadas de diferentes tipos, insetos, até cogumelos –e uma infinidade de peixes. Foi estudando um desses peixes extintos há mais de 100 milhões de anos que pesquisadores brasileiros obtiveram informações cruciais a respeito de como a grande mágica tafonômica do Araripe –a preservação de diversos tecidos moles desses antigos seres vivos– foi operada.

Está tudo descrito nas páginas da revista especializada "Scientific Reports", num estudo coordenado por Mírian Pacheco, da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), e Setembrino Petri, da USP. Já que falei em mágica no último parágrafo, não consigo deixar de pensar numa analogia com o sonho dos antigos alquimistas, que queriam transformar metais vagabundos em ouro. Uma coisa similar ocorreu com o cadáver do peixinho Dastilbe crandalli, cuja matéria orgânica frequentemente era transformada em ouro... de tolo.

"Ouro de tolo" é uma expressão usada para designar a pirita, um mineral composto por ferro e enxofre que está presente em uma das camadas com os abundantes fósseis do D. crandalli. Na rocha calcária de tonalidade bege dessa camada, a maior parte do organismo do pequeno peixe foi "piritizada", ou seja, transformada em pirita, revelaram as análises feitas com microscopia eletrônica. Trata-se, aliás, do primeiro registro de músculos e olhos de vertebrados preservados dessa maneira.

Em outra camada de rocha, de cor cinza, o processo se deu de forma diferente –a parte não solúvel da matéria orgânica, conhecida como querogênio, é que deu origem às partes preservadas do fóssil, com detalhes menos claros dos tecidos moles.

A diferença entre os dois processos? Detalhes da profundidade e do nível do oxigênio da água na qual a fossilização ocorreu, o que também significa variações da participação de bactérias. No caso da piritização, por exemplo, a preservação só é tão boa porque os peixes foram parar num ambiente de pouca oxigenação, no qual bactérias que "respiram" enxofre "comem" a matéria orgânica e criam condições para que o ferro dissolvido na água a substitua, criando assim a estrutura atual do fóssil. Eis uma alquimia ainda mais interessante que a da ficção.