Folha de S.Paulo

Exploração petrolífera torna incerto destino de raros corais da Amazônia


Visitar o gigantesco recife de coral espalhado ao longo da foz do rio Amazonas, numa área que vai do Maranhão ao Amapá, é uma daquelas situações singulares nas quais a exploração dos oceanos da Terra mais parece uma viagem a outro planeta.

No mês passado, brasileiros, a bordo do navio Garnier Sampaio, da Marinha, tiveram a oportunidade de experimentar essa aventura mais uma vez. A equipe, que inclui gente da UFRJ, da UFPA, da USP, da UFPB e da Universidade Estadual do Norte Fluminense, voltou da jornada com uma batelada de amostras –entre outras coisas, prováveis novas espécies de peixes, corais, esponjas e rodólitos (algas vermelhas que podem ser confundidas com corais).

"Só conhecemos uns 5% dessa vasta área", contou-me Fabiano Lopes Thompson, pesquisador da UFRJ e um dos integrantes dessa iniciativa. Não é só esse desconhecimento que justifica a analogia interplanetária no primeiro parágrafo desta coluna, porém. Um observador mais dogmático poderia muito bem dizer que a vibrante comunidade de seres vivos da região não deveria estar ali –embora esteja.

O que acontece é que o Amazonas, não apenas o maior rio do mundo como também, disparado, o mais caudaloso, lança quantidades ridiculamente portentosas de sedimento no Atlântico quando deságua nele. Toneladas e mais toneladas de terra e matéria orgânica formam o que poderíamos comparar à versão submarina de um céu perpetuamente coberto de nuvens densas e escuras.

Do ponto de vista dos corais e da grande variedade de organismos marinhos que dependem deles para sobreviver, o problema desse cenário é que a luz solar sofre para atravessar o véu de sedimentos. E os corais tropicais "clássicos" são filhotes da luz: sem a indispensável radiação solar, as algas que vivem em simbiose com esses invertebrados não conseguem fazer fotossíntese e morrem, tal e qual planta esquecida em quarto escuro.

No entanto, os dados obtidos até agora revelaram uma comunidade de seres vivos saudável e relativamente diversificada em águas mais fundas. Como dizia Ian Malcolm, o matemático deliciosamente neurótico da série "Parque dos Dinossauros", a vida encontrou um caminho –e isso significa que, muito provavelmente, a diversidade de espécies dos corais amazônicos é única.

Segundo Nils Asp, da UFPA, a expedição recente visitou áreas com corais a até 300 km da costa. O esforço está ajudando até a reescrever as cartas náuticas daquele trecho de costa, que andavam defasadas.

Tudo muito lindo, mas está na hora do momento estraga-prazeres. A região está na mira da exploração petrolífera, e audiências públicas no Senado, também no mês passado, debateram o que fazer exatamente a respeito dessa possibilidade, considerando a riqueza pouco conhecida dos recifes amazônicos.

"Mesmo os cientistas não apresentam posição uníssona quanto à necessidade de ampliar o conhecimento sobre a região, de uso sustentável dos recursos e de conservação, aparentemente", diz Thompson. "E a população pode até considerar que a atividade de exploração trará empregos para a região."

Chamem este escriba de doido, mas a possibilidade de gasolina mais barata não me parece sedutora o suficiente para correr o risco de ganharmos incontáveis corais marinados em óleo cru. Petróleo, cada vez mais, é passado. Prefiro recifes com futuro.