Folha de S.Paulo

'Amizade' com bactérias permitiu evolução de seres vivos complexos


Se você nunca ouviu falar do Cloudina, um invertebrado marinho de 543 milhões de anos, não se preocupe: até ler o artigo científico que inspirou esta coluna, eu também não –o que não significa que o bichinho não seja importante, óbvio. Fósseis de Cloudina achados em Corumbá e Ladário (MS) trazem duas grandes pistas sobre a origem dos seres vivos e ecossistemas complexos que fizeram desta nossa Terra um planeta tão sensacional no último meio bilhão de anos.

Essa história está contada numa pesquisa brasileira que saiu recentemente no periódico especializado "Scientific Reports". O artigo é fruto do trabalho de mestrado do sul-mato-grossense Bruno Becker-Kerber, 25, e é assinado também por duas mentoras do rapaz: Juliana de Moraes Leme, da USP, e Mírian Forancelli Pacheco, da UFSCar (instituição onde agora Becker-Kerber faz seu doutorado).

A equipe analisou quase 300 fósseis de Cloudina, criaturinhas que, quando preservadas na rocha, lembram vagamente uma pilha de copos encaixados uns nos outros –só que em miniatura, já que cada indivíduo media apenas poucos centímetros de comprimento por alguns milímetros de diâmetro. Há quem proponha que, no "copinho" do topo da pilha, havia pequenos tentáculos que ajudariam na captura de comida, mas não há indícios diretos da existência deles, conta o pesquisador.

Estudar o Cloudina é importante porque ele é um dos exemplos da transição evolutiva que levou muitos seres vivos a deixarem de ser moles –literalmente. É que, na fase final do chamado período Ediacarano, quando a criatura viveu, surgiram os primeiros exoesqueletos, equivalentes às conchas e carapaças de muitos dos invertebrados de hoje. O Cloudina, por exemplo, tinha uma proteção dura de carbonato de cálcio.

Ora, essa gênese da vida cascuda levanta algumas questões intrigantes: por que teria valido a pena deixar a moleza de lado? E quais condições permitiram esse passo evolutivo? Ocorre que indícios relevantes sobre ambas as perguntas estão presentes nos fósseis brasileiros.

Um motivo óbvio para desenvolver uma camada protetora externa é minimizar a ação de predadores –e, veja você, alguns dos exemplares de Cloudina da região de Corumbá possuem buraquinhos redondos que podem muito bem ser interpretados como marcas de mordida. Trata-se de uma ocorrência rara –só outros dois casos do tipo foram registrados em fósseis do período Ediacarano até agora.

Além disso, a análise dos fósseis sugere fortemente que os Cloudina estavam associados a esteiras microbianas –basicamente massas de bactérias, provavelmente responsáveis por produzir oxigênio durante a fotossíntese. Mais importante ainda, entre as "bordas" ou abas dos "copinhos", há sinais da presença dessas colônias de bactérias, que provavelmente estavam por ali quando os animais ainda estavam vivos, avaliam os pesquisadores.

A aposta da equipe é que organismos mais complexos, como o Cloudina, podem ter se beneficiado do ambiente mais oxigenado produzido pelas esteiras de micro-organismos para turbinar seu metabolismo e desenvolver estruturas mais sofisticadas e custosas –como os exoesqueletos. A presença dos micróbios nas abas do animal sugere uma parceria estreita, ou simbiose, embora não se saiba exatamente como ela se dava.

Becker-Kerber diz que as muitas incertezas em relação ao Ediacarano são parte do charme de estudar os fósseis dessa fase da história da vida. "Tudo o que a gente acaba achando é muito curioso e importante para entender a origem e a diversificação dos animais", resume.