Folha de S.Paulo

Brasileiros desvendam 'origem das espécies' na parte submersa de ilhas


Não, esta não é uma coluna sobre o perigo que as ilhas do planeta estão correndo em tempos de aquecimento global (spoiler: sim, o perigo é real; sim, é causado pelo homem; aceita que dói menos). Só pra variar, vamos falar de coisa boa, como diz aquele pessoal da TV: não sobre o desaparecimento de espécies, mas sobre a gênese delas ao longo de alguns paraísos insulares pertencentes ao Brasil, no arquipélago de Trindade e Martim Vaz.

Para viajar mentalmente até lá, imagine que você está mais ou menos na altura de Vitória (ES), sobe a bordo do seu barquinho e avança uns 1.200 km na direção do Sol nascente. É nessa região do Atlântico que estão as duas principais ilhas que dão nome ao arquipélago, bem como algumas ilhotas e outros pedaços de rocha que não chegam a aflorar, todos formados pela atividade vulcânica do solo marinho.

Como seria de esperar, o isolamento dessas nesgas de chão em meio às águas oceânicas levou ao surgimento de algumas espécies únicas por ali –entre elas, 12 tipos endêmicos (ou seja, exclusivos do arquipélago) de peixes.

A questão é saber como –e é exatamente isso o que uma pesquisa assinada por pesquisadores brasileiros radicados no Espírito Santo e nos EUA buscou elucidar. Publicado recentemente na afamada revista científica "Nature", o estudo tem como primeiro autor Hudson Pinheiro, da Universidade Federal do Espírito Santo e da Academia de Ciências da Califórnia, e dele também participaram pesquisadores como Claudia Rocha, João Luiz Gasparini e Luiz Rocha.

O trabalho é importante porque ajuda a repensar uma visão clássica sobre a origem das espécies em ilhas, que dá conta bastante bem do que acontece na parte emersa (ou seja, de "terra firme") desses locais, mas não funciona com a mesma precisão quando pensamos nos mares em torno de um arquipélago.

Na parte das ilhas que fica acima da linha d'água, é comum que aconteçam as chamadas radiações adaptativas: um pequeno conjunto de espécies chega ali por um golpe de sorte (voando no meio do mar no caso das aves, agarrado a troncos levados pelas ondas no caso de répteis ou, bem mais raramente, mamíferos) e encontra um território "virgem", no qual quase não há concorrentes.

Assim, o mesmo bicho ancestral acaba dando origem às mais variadas espécies, cada uma delas adaptada a diferentes ambientes e estilos de vida (é isso o que deve ter acontecido, por exemplo, com os macacos da América do Sul, todos descendentes de um único bicho africano que foi lançado nas nossas praias uns 40 milhões de anos atrás).

No novo estudo, os pesquisadores brasileiros compararam o DNA dos peixes exclusivos do arquipélago com o de seus parentes que vivem no litoral brasileiro propriamente dito –e viram que o padrão típico da parte "seca" das ilhas não se repete.

Debaixo d'água, quando uma nova ilha fica mais acessível para espécies colonizadoras (quando o nível do mar abaixa um pouco, digamos, o que facilita a migração de peixes que só vivem em águas rasas), os recém-chegados aparecem por ali com mais facilidade.

É claro que isso se deve, em parte, ao fato de eles terem uma "estrada" –a água– à sua disposição, enquanto espécies terrestres não conseguem simplesmente pular de ilha em ilha. Radiações adaptativas não acontecem, portanto –cada peixinho se estabelece de forma mais modesta, nos poucos "empregos" ecológicos que ainda estão vagos. Concorrência, como sabem os empresários, não é brincadeira.