Folha de S.Paulo

Risco de eleger uma 'palavra preferida' é deixar as outras enciumadas


A última pergunta da boa entrevista que o jornalista estrangeiro faz comigo sobre o estado atual do português em nosso país e no mundo, a propósito do meu livro "Viva a Língua Brasileira", é a única que deixo sem resposta: "Qual é a sua palavra preferida na língua portuguesa?"

Não tenho nada parecido com uma palavra preferida, na língua portuguesa ou em qualquer outra. Mesmo levando em conta que a pergunta é uma daquelas borbulhas que o jornalismo recomenda como forma de amaciar um conteúdo talvez duro –quer dizer, nada que exija profundidade, brincadeira só–, mesmo assim não sei brincar.

O jornalista não consegue disfarçar a decepção com essa lacuna. Termina a entrevista e fico pensando: e se eu premeditasse uma resposta espirituosa para "improvisar" da próxima vez? Passo em revista algumas palavras catitas, sedutoras. Outras patuscas, chistosas, maneiras. Além de meia dúzia de esquisitas, viajandonas, bizarras.

Não adianta. A ideia de eleger uma menina dos olhos entre milhares e milhares de palavras me provoca uma leve náusea. É uma proposta escalafobética. (Aliás, que tal "escalafobético"? Não, muito abstruso.)

A verdade é que eu preciso de todas as palavras, inclusive aquelas que ainda não sei. Como manifestar preferência, hierarquizar? Um substantivo horroroso como "bócio", por exemplo, pode se fazer a entrada mais desejável do dicionário pela beleza da adequação, pela capacidade de dar o seu recado como nenhum outro.

Não acho que haja um pingo de arrogância nessa promiscuidade vocabular. Pelo contrário: uma poligamia judiciosa e gentil é a condição natural do escritor que, sendo artesão consciente, inseguro dos seus ariscos meios de expressão, morre de medo de despertar o ciúme de uma amada que seja, que dirá arriscar um motim.

"Lutar com palavras é a luta mais vã", superlativou Drummond. Se isso era verdade para o autor de "A máquina do mundo", aquele das "mãos pensas" (hmm, o que pensas de "pensas"?), é claro que ninguém está seguro.

Ninguém mesmo, constato mais uma vez ao ler a nova introdução que Caetano Veloso escreveu para a edição comemorativa do 20º aniversário daquele seu cartapácio (opa, quem sabe?) tão interessante quanto barroco, "Verdade Tropical".

Diz ele: "VT foi escrito na flor dos meus 54 anos, quando a memória para o vocabulário era rápida e precisa. Hoje, penso que deveria comprar um dicionário analógico (ou achar um online) mas me esqueço de fazer uma coisa ou outra".

Fiquei assustado ao descobrir que também para o compositor baiano, tão hábil em roçar sua língua na língua de Luís de Camões, as palavras andam fazendo doce. Na flor dos meus 55, até hoje nunca tinha me ocorrido a ideia –óbvia, pensando bem– de que a idade pudesse ser mais um fator de dureza nesse jogo.

Confesso que tais pensamentos me deixaram meio sorumbático. "Sorumbático" que já foi, tempos atrás, uma das palavras que mais me davam alegria, numa frontal contradição entre sentido e forma. "Macambúzio", seu sinônimo, também.

Mas isso passou, eu juro. Eram paixões de adolescente, pelas quais peço um perdão contrito e arquejante a todas as outras palavras já inventadas ou ainda por inventar.