Folha de S.Paulo

'Lacrou': gíria traduz admiração, mas não esconde traço autoritário


Na revista "Piauí" deste mês, Antonio Engelke, doutor em ciências sociais pela PUC carioca, faz uma análise "progressista" –e por isso mais relevante– dos tiros no pé desferidos pelas políticas identitárias que caracterizam grande parte da esquerda atual, com sua ênfase nas ideias de pureza e essência manifestas em conceitos como "lugar de fala" e "apropriação cultural".

Trata-se de um debate que nada tem de simples, preto no branco. Não tentarei resumir aqui a argumentação nuançada do autor, que gasta seis páginas de letras miúdas para se distanciar tanto da condenação conservadora dos movimentos de afirmação de minorias quanto das armadilhas autoritárias e autossabotadoras que se apresentam em seu caminho.

O artigo é brilhante, e deixo aqui uma enfática recomendação de leitura. Vou comentar apenas o curioso caso línguístico pelo qual Engelke inicia seu argumento: o da gíria "lacrar", forte candidata a palavra mais eloquente e emblemática dos últimos anos no país.

Qualquer brasileiro que não tenha passado esta década numa câmara criogênica sabe que "lacrar" quer dizer "arrasar, mandar bem demais". Pode-se argumentar que essa definição é excessivamente informal. É mesmo. Em linguagem careta de dicionário, seria algo como "sair-se muito bem, obter sucesso indiscutível".

Acontece que, como é comum no mundo das palavras e mais ainda no das gírias, a definição não esgota o assunto. "Lacrar" carrega sua aura, suas manias. Tendo ainda poucos anos de vida, um conteúdo sexual já meio difuso e um selo descolado de gíria gay, é do tipo que, pelo mero enunciado, faz o falante se sentir potente e em dia com seu tempo.

Quase sempre está no pretérito perfeito e na terceira pessoa: "lacrou" é sua forma preferencial, embora o gerúndio "lacrando" seja admitido. "Lacrei", numa imodesta primeira pessoa, soa arrogante: tudo indica que a "lacração", ou seja, a ação "lacradora", deve ser reconhecida pelo outro antes de se tornar medalha social no peito do agente.

Só que, sendo tudo isso em sua encarnação moderninha, "lacrar" não deixa de ser também um respeitável verbo datado do século 17. Significa, como se sabe, "vedar com lacre". Lacrar não é apenas fechar, travar um recipiente ou um mecanismo. É fazer isso de forma a garantir sua inviolabilidade.

Sentidos figurados nunca apagam os literais. São camadas que se superpõem. Aí vem a sacada de Engelke: "Dizer que fulano 'lacrou' é expressar admiração por uma ação ou fala que é percebida como o ponto final, a última palavra sobre um determinado assunto ou situação. Depois que alguém 'lacrou', supostamente nada resta a ser dito".

Como anota o autor, a gíria tem por base –e acaba por reforçar– "a ideia de que debates, em princípio, admitem um fechamento irrevogável, e não são desprezíveis as consequências disso para as discussões concretas de que venhamos a tomar parte".

Fico tentado a chamar de lacradora essa ideia de que a epidemia de "lacrações" espelha e realimenta nosso ambiente de intolerância mútua, em que as cabeças parecem vedadas a tudo o que, contrariando certezas pré-moldadas, ameace obrigá-las a pensar. Mas não, nada disso: o debate continua aberto. Ainda bem.