Folha de S.Paulo

140 > 280: toques em dobro podem matar o que o Twitter tem de melhor


"Escrever é cortar palavras." A frase costuma ser atribuída a Carlos Drummond de Andrade, mas a autoria me parece duvidosa. O maior poeta brasileiro dificilmente teria deixado de notar que "palavras", nesse caso, é gordura. "Escrever é cortar."

O velho debate sobre a concisão me vem à cabeça a propósito da espantosa novidade anunciada semana passada pelo Twitter: a ampliação de seu já lendário limite de 140 toques para 280.

Em fase experimental, ainda restrita a um punhado de tuiteiros, a mudança deve ser compreendida no quadro do nervosismo que tomou conta da empresa nos últimos tempos, depois que suas ações despencaram para um quarto do valor de 2013 e seu crescimento estagnou pouco acima de 300 milhões de usuários ativos.

Quem atira para todos os lados acerta o pé às vezes. Não sei o que pensa essa multidão aí, mas a novidade foi recebida com revolta pela maior parte da minha turma naquela que aprendi a prezar como a mais inteligente (ou a menos tolinha) das redes sociais.

Ninguém precisa de tanto espaço para escrever "ideia de jerico", pensei. Reconheço que, em termos quantitativos, a repulsa que a novidade me provocou é absurda: 280 toques estão longe de caracterizar aquele latifúndio improdutivo chamado textão.

No entanto, tudo indica que foi o aperto inicialmente desconfortável –e arbitrário– que transformou o Twitter na rede social menos amiga da futilidade e da dispersão, e portanto mais propícia à circulação de informação "séria".

Sim, há papo furado por lá, alimentado pelo prazer viciante da piadinha rápida. Mas não sejamos sérios demais: a forma breve é um antídoto tão eficaz contra a autocomplacência que muitas vezes transforma tiradas narcisistas em epigramas inesquecíveis. Oscar Wilde seria um grande tuiteiro.

Elogiar o Twitter não implica fazer vista grossa para o esgoto moral a céu aberto característico da tragicomédia humana que as redes sociais iluminaram. A empresa se expõe a críticas justas pelo modo como lida com trolls e criminosos em geral. Mas sobre isso o limite de toques tem pouco a dizer.

Aquilo em que o limite é eloquente é o que me faz torcer para que a experiência da duplicação seja abandonada o mais depressa possível: o valor da disciplina textual monástica numa era em que o culto demagógico do "expresse seu eu" criou uma pornografia opinativa tão prolixa quanto entediante.

Somos notoriamente ruins, como espécie, na previsão do futuro. Eu me lembro que a crítica mais sofrida pelo Twitter nove anos atrás era a de que seria o tiro de misericórdia na cultura letrada, pois nada além da mais dolorosa superficialidade poderia ser expresso em 140 toques.

Era o que eu achava também. Demorei um pouco a me dar conta de que a camisa de força resgatava valores cultos que se opõem heroicamente à hiperinflação simbólica da internet: reescritura, busca de foco, atenção maníaca ao que as palavras podem ter de flácido, supérfluo, vazio.

"Nasceu, cresceu, amou um pouco, envelheceu, e logo antes de morrer se deu conta, desolado, que sua vida cabia num tuíte." Escrevi isso certa vez para um concurso internacional de twitteratura. Não ganhei nada, mas fiquei satisfeito com meus 120 toques. Nem um a mais.