Folha de S.Paulo

Desacreditada por médico, garota que nasceu com microcefalia vira modelo


Quem vê a modelo Ana Victória, 17, entusiasmada diante da câmera e repetindo à risca as orientações dos instrutores no estúdio não pode imaginar que aos oito anos de idade ela recebeu como sentença "uma incapacidade permanente para a vida social".

Esta foi a explicação do médico para a família, que ainda incluía restrições no convívio escolar e descartava por completo a possibilidade de um dia ela trabalhar. Ana Victória Lago de Souza nasceu com microcefalia e acredita ser a primeira modelo brasileira com esta condição.

Natural de Boa Vista, ela hoje vive em Manaus com os pais e duas irmãs mais novas –uma delas, Maria Luiza, 15, também com microcefalia. Ela assinou no mês passado um contrato, com duração de um ano, com a BM Model, agência de modelos de Manaus com projeto para revelar modelos com algum tipo de necessidade especial.

Na sessão de fotos que a reportagem acompanhou, Ana Victória não demonstrou timidez diante das câmeras. Ficou atenta aos pedidos do fotógrafo e repetia as mesmas poses quantas vezes era solicitada –apenas com um pouco de impaciência natural de adolescente. "De novo?", perguntou ela, em uma das vezes, ao ser orientada a voltar para o início do estúdio e seguir andando em direção à câmera.

A principal entusiasta da nova fase de Ana Victória é a mãe, Viviane Pereira Lago, 36. Ela soube com seis meses de gestação que a filha teria problemas no desenvolvimento do cérebro. Agora, Viviane acompanha a filha nos ensaios fotográficos, gerencia a rede social da modelo e concede as entrevistas.

É a mãe quem narra à reportagem a trajetória de Ana Victória –a adolescente tem dificuldades para falar. A evolução da garota ganha destaque em um momento em que a microcefalia passou a ser realidade para milhares de mães brasileiras que foram infectadas pelo vírus da zika na gestação.

Viviane deu à luz a filha em um momento em que a microcefalia era desconhecida para a maioria das pessoas. "O primeiro laudo pós-nascimento era o de que ela não falaria e não andaria, com sérios comprometimentos motores e mental."

A rotina na infância incluía sessões de fisioterapia. Fora da clínica, a mãe mantinha uma rotina caseira de exercícios para estimular o cérebro. "Ela era estimulada o tempo todo. Na hora do banho, da comida. Até na hora que chorava eu a estimulava a chorar mais um pouco." "Logo de cara notei que a Ana Victória tinha talento", diz Creuza Rodrigues, diretora da agência BM Model, que decidiu contratar a garota.

A mãe diz que ela quer servir de exemplo de superação para outras pessoas. "Minha filha está sendo estimulada a amadurecer. É isso o que ela quer para a vida dela."