Folha de S.Paulo

Rebelião deixa 7 adolescentes mortos em centro socioeducativo na Paraíba


Sete adolescentes, com idades entre 15 e 17 anos, foram mortos e dois ficaram feridos na madrugada deste sábado (3) em uma rebelião no Centro Socioeducativo Lar do Garoto Padre Otávio Santos, em Lagoa Seca, região metropolitana de Campina Grande (PB).

Segundo a Polícia Civil, a rebelião começou por volta das 2h30, quando um grupo de jovens tentou fugir do centro socioeducativo, que abriga adolescentes infratores. O vice-diretor da unidade, Francisco Souza, confirmou 11 fugas.

Parte dos internos que não conseguiu escapar teve acesso a uma outra ala do centro socioeducativo onde ficava um grupo rival.

Eles atearam fogo em colchões e móveis incendiando a ala onde estavam os rivais. A maioria dos mortos foram encontrados carbonizados. Segundo Souza, a unidade tem capacidade para 44 internos, mas abrigava 220.

Os dois feridos foram encaminhados para um hospital da cidade. Um deles, de 16 anos, foi vítima de agressão física e teve que passar por uma cirurgia para drenagem de uma hemorragia no tórax. Seu quadro é estável.

O outro adolescente, de 17 anos, também foi vítima de agressão, foi atendido por uma equipe de ortopedistas e passa bem. Ele já recebeu alta e voltou ao Lar do Garoto.

Equipes da Polícia Militar, Polícia Civil e Corpo de Bombeiros atuaram para cessar a rebelião, que foi controlada durante a tarde

Três dos internos que provocaram o motim foram identificados pelos agentes. Eles são maiores de idade –sabe-se que um deles tem 19 anos e está no internamento desde 2015.

No Lar do Garoto, o interno fica de seis meses a três anos em recuperação. A idade máxima para permanência é 21 anos.

Dois deles são irmãos oriundos da cidade de Esperança, também no agreste paraibano. Eles foram levados para a Central de Polícia de Campina Grande onde prestaram depoimento.

Desde o início do dia, parentes dos internos se aglomeraram em frente ao portão do Lar do Garoto em busca de informações sobre seus filhos.

A Folha conversou pais e mães que buscavam informações junto à direção do centro socioeducativo. Entre eles, o sentimento predominante era de medo.

Em pé, junto ao portão de entrada desde o início da manhã, Joseane Costa, mãe de um dos internos, soube que seu filho não estava entre os adolescentes assassinatos no motim somente no início da tarde.

Mesmo aliviada com a informação, ela diz que não conseguirá ficar tranquila perante o clima de insegurança no Lar do Garoto.

O servente de pedreiro Eufrázio Silva, que chegou às 7h ao local, ainda não tinha informações sobre o filho no final da tarde.

"A situação para os pais é desesperada. Ninguém sabe como será amanhã, se os nossos filhos estarão vivos".

A direção da unidade informou que está fazendo as melhorias da parte elétrica, recuperando grades e toda a estrutura física danificada.

A última rebelião no Lar do Garoto aconteceu em dezembro de 2014, quando os internos se rebelaram contra os agentes e colocaram fogo em colchões em uma das alas. O motim resultou em duas fugas e 12 feridos, sendo dez internos e dois agentes.

Em nota, o Tribunal de Justiça da Paraíba informou que lamenta as mortes ocorridas no Centro Socioeducativo Lar do Garoto e presta solidariedade às famílias dos adolescentes que morreram na rebelião.

O TJ-PB ainda afirmou que a responsabilidade pela administração dos centros socioeducativos é do Poder Executivo e que o problema da superlotação pode ser resolvido com a construção de novas unidades, além da nomeação e capacitação de servidores.

O sistema penitenciário do país vive uma crise sem precedentes desde o primeiro dia do ano.

Rebeliões em presídios, principalmente, das regiões norte e nordeste terminaram com centenas de mortos e colocaram em evidência o colapso do setor, que é superlotado e pouco eficiente na regeneração do preso, segundo entidades e especialistas que estudam o tema.

A crise teve início em 1º de janeiro, com um motim no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus (AM), que terminou com 56 detentos mortos e 184 foragidos.

A matança registrada no presídio da capital do Amazonas foi a maior em número de vítimas em presídios do país desde o massacre do Carandiru, em 1992, em São Paulo, quando uma ação policial deixou 111 presos mortos na casa de detenção.

Depois foi a vez das unidades de Roraima, Rio Grande do Norte e Mato Grosso registrarem os massacres. Em todos os casos, as rebeliões partiram de ordens de facções criminosas, que disputam o controle do tráfico de drogas nas penitenciárias.