Folha de S.Paulo

Doria não mudou nada de São Paulo e só faz sucesso no celular, afirma FHC


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) sugeriu nesta sexta-feira (23) que o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), faz mais publicidade do seu governo do que ações concretas.

Doria assumiu a gestão paulistana em janeiro, após vitória no primeiro turno das eleições do ano passado, e tem sido se posicionado como um possível candidato ao governo do Estado e à Presidência no ano que vem.

Durante palestra para convidados do laboratório Alta, de medicina diagnostica, na capital paulista, o também tucano fez uma análise sobre políticos modernos e o uso da tecnologia. E neste momento falou sobre o desempenho do prefeito de São Paulo.

"Isso aqui está no meu bolso [celular], não está na minha alma. O mundo hoje tem isso aqui na alma. Pega qualquer um. Por que o prefeito de São Paulo está fazendo algum sucesso? Ele [se dedica] para isso o dia inteiro. Ele fez, mudou alguma coisa? Não vi. Mas aqui ele sabe", disse.

FHC, que é presidente de honra do PSDB, afirmou que o partido precisa fazer logo a escolha de quem vai concorrer às eleições de 2018. Para ele, essa pessoa tem que ter capacidade de dialogar com o país e as instituições.

Nesse sentido, ele defendeu um movimento de centro, como registrado na França com a eleição do presidente Emmanuel Macron, cujas características são a jovialidade e o pensamento liberal progressista –algo que poderia ser visto em Doria.

"Não estou propondo que seja ele [o candidato], não, mas acho que precisamos mudar de geração. Para poder fazer frente a esse mundo novo, precisamos de outra cabeça, outra geração, pessoas que possam se comunicar com os mais jovens e de maneira mais atualizada", afirmou o ex-presidente.

Em Miami, nos Estados Unidos, onde participou de uma conferência de prefeitos, Doria rebateu a crítica do ex-presidente. "Respeito muito o presidente FHC, mas acho que ele está precisando sair um pouco de seu apartamento e visitar São Paulo", disse.

Esse não é o primeiro estranhamento público entre FHC e Doria. Em março, por exemplo, em entrevista ao jornal "O Globo", FHC comentou o discurso do prefeito de que é "gestor, e não político" e a viabilidade de ele concorrer ao Planalto em 2018.

"O Brasil está cheio de bons gestores e nem todos viram líderes. O importante na política é ser líder. Liderança você constrói e leva tempo. Para governar, tem também que ter credibilidade. Isso não é igual a popularidade", disse Fernando Henrique ao jornal.

Doria rebateu no primeiro evento público em seguida. "Respeito muito o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mas eu só lembro que ele previu que eu não seria eleito nas prévias para ser candidato pelo PSDB", disse.

"[FHC] apoiou outro candidato, o que não muda minha admiração. Ele mesmo já confessou que, quando comecei campanha para prefeito de SP, acreditava que eu não seria eleito. Venci as duas. Os dois primeiros prognósticos do FHC ele errou."

Publicamente, Doria tem defendido a candidatura do governador Geraldo Alckmin à Presidência pelo PSDB nas próximas eleições.

Segundo pesquisa Datafolha do início de junho, Doria tem 41% de aprovação. Há dois meses, tinha 43%, contra 44% em seu primeiro mês no cargo. A desaprovação, que havia subido de 13% para 20% entre fevereiro e abril, ficou estável em 22%.

Fernando Henrique também criticou a decisão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) de livrar o presidente Michel Temer da cassação da chapa junto com Dilma Rousseff, e disse que o peemedebista poderia antecipar as eleições.

FHC ainda classificou como gravíssimo a possível denúncia por corrupção da Procuradoria-Geral da República contra o presidente, envolvido nas delações da JBS, dos empresários Wesley e Joesley Batista.

"Tem uma coisa que é inédita: o procurador-geral da República, baseado na Polícia Federal, se dispõe a mover uma ação contra corrupção contra o presidente da República. "Isso nunca houve. Uma coisa gravíssima", afirmou o ex-presidente.

Ao falar do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, FHC afirmou que só o restará vencer nas urnas, caso não haja condenações na Justiça em razão dos processos movidos contra o petista.

"Suponhamos que a Justiça diga que o Lula não fez nada. Ele é candidato -o único candidato possível do PT. Só resta vencer na urna. Ou então dar golpe. Eu sou contra golpe. Só resta vencer na urna. Só que não tem jeito. Preparemo-nos para isso. Para vencer", afirmou.