Folha de S.Paulo

Igreja instala painel colorido para tentar espantar pombos


Um painel curioso foi colocado sobre a porta esquerda da entrada da Igreja de Nossa Senhora da Consolação (região central), com uma espécie de alvo pintado em cores vibrantes.

Com os dizeres "painel hipnótico para pombos", o cartaz tem sido, há três meses, a arma da paróquia para enfrentar os inimigos alados, que vinham causando transtornos aos fiéis no último ano.

Segundo frequentadores da igreja, dezenas de pombos voavam durante as missas, dando rasantes sobre os devotos e atingindo-os com fezes, eventualmente. "Era um tormento, atrapalhava a celebração da missa, assustava crianças e senhoras, e às vezes alguém era sorteado no bombardeio", disse Jacqueline Cecília Pereira, 33 anos, voluntária da igreja. "O barulho das asas também irrita. A situação estava intolerável", afirmou Cecília.

A solução foi contratar uma empresa especializada. "Quem decidiu chamar a empresa foram os benfeitores da igreja, que, após a reforma do relógio, viram a precariedade de sujeira e ninhos de pombos no telhado", disse o padre José Roberto Pereira, pároco da Nossa Senhora da Consolação.

Segundo o padre, os pombos também causavam prejuízo, sujando com frequência os bancos e o chão da catedral. "A problemática dos pombos acontecia havia mais de um ano e meio. Eles começaram a fazer ninho nos beirais dos capitéis da igreja e começaram a procriar. Eles davam voos rasantes e sujavam a igreja, os bancos, as pessoas. E estavam fazendo barulho durante os momentos de silêncio", diz o padre.

Os benfeitores convidaram duas a três empresas que trabalhavam com pombos e chegaram à Protec. O trabalho começou com a limpeza no forro da igreja e na torre. Foram colocadas telas de proteção contra aves e feitas a dedetização e a higienização da parte superior.

Segundo o padre, o painel foi sugerido porque ele não quis que fosse colocada uma tela na porta principal da igreja. "Eles propuseram como solução o painel hipnótico de pombos. Ele está lá há três meses e está funcionando", diz o religioso.

"Melhorou. Não sei como funciona, mas o painel deu certo", afirmou o aposentado Carlos Salvador, 75 anos, frequentador assíduo da igreja. "Desde que instalaram, ninguém reclamou mais dos pombos."

De acordo com o biólogo Arif Cais, professor da Unesp de São José do Rio Preto (a 438 km da capital), os pombos são portadores de vírus, bactérias e fungos que podem provocar doenças graves ao homem e devem ser combatidos como praga.

"É um erro alimentar essas aves. A proliferação delas não deve ser estimulada. O pombo é pior do que um rato com asas, na verdade, provoca diversas moléstias", afirma o biólogo.

Entre as doenças mais graves e que podem ser fatais, Cais destaca a criptococose, provocada por um fungo. "Se esse fungo se instalar no sistema nervoso, pode provocar a grave meningite criptococócica, de difícil detecção e de tratamento muito caro", explica. Outra doença perigosa trazida pelo pombo é a histoplasmose. "Essa doença é causada por outro fungo e pode deixar sequelas graves, como áreas inertes nos pulmões", diz o biólogo.

Segundo o supervisor técnico Osmando Rodrigues, 42 anos, da empresa Protec, o painel é parte de um conjunto de medidas e não funciona sozinho. "É preciso colocar telas nos acessos e estudar as rotas de voo. O painel é colocado na rota das pombas, depois de ao menos duas semanas de observação", afirma Rodrigues.

Ele diz que a bióloga da empresa trouxe o sistema dos Estados Unidos. "Os círculos provocam vertigem no pombo, que passa a evitar aquela rota de voo. Como eles sempre fazem a mesma rota, não entram mais e o local fica livre das aves", diz o técnico. Nem a igreja e nem Rodrigues revelam o custo do sistema.

"Cada caso é um caso e não dá para passar o preço sem fazer um orçamento", fala o técnico.

"Eu não vejo como esse sistema possa funcionar. Um painel estático não provoca vertigem em ave alguma", afirma o ornitólogo (especialista em pássaros) Luiz Fábio Silveira, curador da coleção de aves do Museu de Zoologia da USP.

"Os pombos determinam as suas rotas de voo, mas isso é durante a migração. Os deslocamentos diários são bem previsíveis, mas dependem de outros fatores como a disponibilidade de alimento, locais de repouso", disse Silveira. "O que é efetivo para controlar pombos é não alimentá-los de jeito nenhum, não deixar lixo orgânico jogado na rua e tornar os locais de descanso e nidificação (fazer ninhos) difíceis para as aves", diz.