Folha de S.Paulo

Em 5 horas, três mulheres reportam crimes sexuais nos ônibus de SP


Em cinco horas, três passageiras foram alvo de abuso sexual dentro de ônibus, na manhã desta quarta-feira (27), na capital paulista. Às 7h, o auxiliar administrativo Evandro Quessada da Silva, 26 anos, foi preso em flagrante, no Tatuapé (zona leste), sob suspeita de ejacular nas pernas e nos pés de uma passageira dentro de um ônibus lotado.

Ao perceber a agressão, a vítima gritou. Passageiros seguraram o suspeito e o espancaram até a chegada da PM. Ninguém foi detido pela agressão ao acusado. A calça da vítima, com sêmen, foi apreendida.

O delegado Rubens Salles Pereira Orrin tipificou o abuso como crime de violação sexual mediante fraude (que é inafiançável). Em audiência de custódia no Fórum da Barra Funda (zona oeste), o juiz criminal Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo entendeu, porém, que houve importunação ofensiva ao pudor (contravenção penal) e decidiu soltar o acusado.

"O crime sexual mediante fraude pressupõe o emprego de ardil como meio de execução e, no caso concreto, não houve qualquer contato anterior entre averiguado e vítima", justificou o juiz.

Também às 7h, o vigilante noturno Rafael Anselmo Alves Lopes, 31 anos, foi preso em flagrante pela PM, na av. Imirim (zona norte), suspeito de esfregar seu pênis em uma mulher de 35 anos dentro de um ônibus. Ele tem passagem por atentado violento ao pudor. A polícia registrou o caso como estupro. Ele ainda seria encaminhado para audiência de custódia.

Às 11h45, um homem de 50 anos foi preso em flagrante acusado de importunação ofensiva ao pudor em um coletivo na av. Jabaquara (zona sul). A polícia diz que ele se sentou atrás de uma passageira de 25 anos e apalpou por duas vezes as nádegas dela. A vítima avisou cobradora e motorista, que chamaram a PM. Não houve testemunhas. Ele assinou termo circunstanciado e foi liberado.

A primeira das vítima relatas, a do Tatuapé, uma assistente administrativa de 34 anos, diz que sua sensação foi de "nojo, desrespeito". "Senti um movimento, e, depois, um negócio caindo na minha perna e no meu pé; vi que estava sujo. Na hora desacreditei, pensei: 'não é isso'. Mas, quando olhei para ele, vi que estava fechando o zíper", disse a vítima, que preferiu não se identificar.

Ainda assustada, a jovem disse ter acompanhado outros casos semelhantes pela imprensa, com o de Diego Novais, preso, solto e preso novamente, entre o final de agosto e o começo deste mês, depois de atacar mulheres em ônibus na região da avenida Paulista (centro).

"Tenho visto isso na TV e jamais imaginei que aconteceria comigo. É uma sensação de nojo, desrespeito, não sei explicar direito –nunca tinha passado por isso. Minha perna está tremendo até agora", afirmou aos jornalistas, na delegacia, mais de duas horas após o ocorrido. "Minha primeira reação foi gritar. Agora, espero que algo seja feito com ele que seja preso, que vá se tratar", concluiu a mulher.

Evandro Quessada da Silva disse informalmente, segundo a polícia, que ejaculou na vítima, mas não soube informar o porquê da atitude.

Rafael Anselmo Alves Lopes afirmou, segundo a polícia, que passa por problemas no relacionamento e que o ataque foi uma "espécie de válvula de escape", mesmo sabendo que é errado. Ele alegou, diz a polícia, que "agiu por impulso" e não conseguiu se controlar.

O terceiro acusado alegou que o ônibus deu uma "freada brusca", e ele encostou no banco em que a vítima estava sentada. Ele afirmou que é casado há 27 anos, pai de quatro filhos, avô de quatro netos e "jamais" cometeria abuso. Os advogados dos acusados não foram localizados.

O projeto de lei que cria o crime de constrangimento ofensivo ao pudor foi aprovado nesta quarta pela CCJ (Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania) do Senado. O texto do senador Humberto Costa (PT/PE) prevê pena de dois a quatro anos de reclusão. Encaixa-se nesse crime, por exemplo, um homem que ejacula em uma mulher dentro de um ônibus.

Outro projeto, da senadora Marta Suplicy (PMDB/SP), também aprovado nesta quarta, cria o crime de molestamento sexual, com reclusão de três a seis anos. Ambos os projetos foram aprovados por unanimidade e seguem para votação na Câmara.