Folha de S.Paulo

Mais uma criança morre após incêndio em creche em MG; número chega a 7


Autoridades da polícia e do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais informaram nesta sexta-feira (6) que sete crianças morreram em um incêndio nesta quinta (5) uma creche em Janaúba (554 km de Belo Horizonte).

O fogo foi provocado por Damião Soares dos Santos, 50, vigia da creche, que morreu no incêndio. Uma professora, Heley de Abreu Silva Batista, 43, também morreu após ter 90% do corpo queimado na tentativa de salvar as crianças.

Até o início da manhã de sexta, havia confirmação da morte de cinco crianças.

A sexta perda veio durante a tarde. Cecília Davina Gonçalves Dias, de 4 anos, que chegou a ser reanimada durante a madrugada após sofrer paradas cardíacas, não resistiu.

Em seguida, Yasmin Medeiros Sabino, de 4 anos, também morreu na tarde desta sexta-feira. Ambas estavam internadas em Montes Claros, no norte de Minas.

As demais crianças que morreram tinham quatro anos de idade -Juan Pablo Cruz dos Santos, Luiz Davi Carlos Rodrigues, Ruan Miguel Soares Silva, Ana Clara Ferreira Silva e Renan Nicolas dos Santos Silva.

O Corpo de Bombeiros desmobilizou o posto de comando em Janaúba no início da noite, já que não há mais necessidade de transferir vítimas. As aeronaves permanecem em prontidão caso haja alteração no quadro de saúde dos feridos.

Havia cerca de 60 crianças no Centro Municipal Infantil "Gente Inocente" na manhã de quinta, quando o vigia arremessou gasolina em várias crianças e em si mesmo e ateou fogo em seguida.

Um total de oito aeronaves foi mobilizada para o atendimento às vítimas —três da Polícia Militar, Polícia Civil e Bombeiros, duas dotadas de UTI móvel e três particulares, de empresários da região

Entre quinta e sexta, 13 pessoas –11 delas crianças – foram transportadas em aeronaves para o Hospital João 23, em Belo Horizonte, que é referência no tratamento de queimaduras.

Quatro crianças chegaram por volta das 19h30 de quinta. Outras quatro, por volta de 1h da manhã; e mais três chegaram às 7h15 de sexta.

Duas professoras da creche, de 63 e 42 anos, chegaram a BH por volta das 11h. Todos os internados estão em estado grave.

Durante a manhã, três crianças foram transferidas do Hospital João 23 ao Hospital Odilon Behrens, também em BH. Outras duas crianças, inicialmente atendidas no João 23, foram levadas para o Hospital João Paulo 2º, um anexo direcionado para o tratamento pediátrico.

Todas as cinco sofreram queimaduras nas vias respiratórias, mas não na pele.

Há 14 crianças, com idades entre 1 e 6 anos, recebendo tratamento em Montes Claros. Duas adultas de 23 e 51 anos também são atendidas na cidade.

No Hospital Regional de Janaúba, 12 crianças permanecem internadas.

Janaúba

Três crianças e as duas professoras passaram por cirurgia no Hospital João 23 devido a queimaduras de pele e permanecem internadas.

Segundo Marcos Mafra, coordenador da unidade de queimados do hospital, o tratamento é prolongado, com duração de semanas ou meses.

"Ao longo desse tratamento serão feitas várias cirurgias e, havendo necessidade de usar substitutos temporários de pele, que podem ser peles artificiais ou de cadáveres, serão utilizadas", disse o cirurgião plástico.

O banco de peles da Santa Casa de Porto Alegre já reservou seu estoque para as vítimas de Janaúba, se necessário.

A pele de cadáveres é usada de forma temporária, até que seja possível realizar um enxerto com pele de uma região sadia da própria vítima.

Mafra afirma que as crianças terão a marca do incêndio para sempre. "A pele nunca mais volta a ser uma pele de aparência normal. O que a gente tenta fazer, dentro da evolução da medicina e da cirurgia plástica, é proporcionar o melhor resultado possível. Evitar que a pessoa tenha perda de funções é o mais importante."

Também estão internadas no João 23 outras três crianças, que tiveram queimaduras nas vias respiratórias e intoxicação por inalação de fumaça.

Todas as vítimas atendidas no hospital respiram com ajuda de aparelho e foram entubadas. O quadro de saúde é grave.

As três crianças transferidas para o Hospital Odilon Behrens respiram com a ajuda de aparelhos e estão em estado grave. Há risco de morte, apesar do quadro de saúde estar estabilizado.

Marcos Evangelista, gerente da pediatria do hospital, informou que as crianças tiveram as vias respiratórias lesionadas por inalação da fumaça quente, mas não sofreram intoxicação. Elas estão sedadas no centro de tratamento intensivo.

As crianças, de 2, 3 e 5 anos, não tiveram queimaduras na pele. Alunas da creche em Janaúba, elas foram resgatadas pelos pais durante o incêndio e chegaram a ir para a casa.

Mais tarde, ao apresentarem sintomas como tosse, foram hospitalizadas e entubadas na cidade do norte de Minas, antes de serem transferidas a BH.

O médico não soube precisar quanto tempo deve durar o tratamento e se as crianças terão sequelas, mas disse que espera que tenham alta "dentro de dias".

Segundo Evangelista, o atendimento ainda em Janaúba foi essencial. Os pais haviam recebido a orientação de levar os filhos aos hospitais ao menor sinal de problemas respiratórios.

Parentes das crianças receberam atendimento psicológico e de assistência social no hospital, que é referência em pediatria. Dois leitos da unidade de terapia intensiva da pediatria ainda estão disponíveis, caso seja necessário.

Segundo o Corpo de Bombeiro o prédio em que a creche municipal Gente Inocente estava funcionando não possuía extintores, saídas de emergência e sinalização de emergência. O prédio também não tinha alvará dos bombeiros.

Em nota, o Ministério Público de Minas Gerais disse que instaurou inquérito para investigar se o prédio possuía segurança estrutural, plano de fuga e estratégia de combate à incêndios.