Folha de S.Paulo

Professor leva roda de capoeira a usuários de droga na cracolândia


Segunda-feira, 16h, cracolândia, centro de São Paulo. De dentro de uma sala do Caps, espaço que oferece atendimento psicológico aos usuários de drogas, um homem retira três atabaques (espécie de tambor africano) e os coloca na calçada. Poucos minutos depois, começa a batucada: os frequentadores do local assumem os equipamentos e começam a cantar o clássico "Trem das Onze".

Em seguida chegam berimbaus, agogôs, reco-recos e pandeiros. Um homem com um cachimbo atrás da orelha pega um desses instrumentos com uma mão e segura uma pedra com a outra. Mas não é crack, e sim um ferramenta para controlar o tom do berimbau. Começa a capoeira.

As cena se repete há três anos nas tardes de segundas e quartas, quando acontece a roda de capoeira organizada por Josuel Vitalino, 56, conhecido entre os usuários como Mestre Baiano.

Durante algumas horas, usuários de drogas, assistentes sociais e alguns passantes convivem em aparente harmonia, e quem participa da roda até esquece do ambiente pouco convidativo ao redor.

Para Mestre Baiano, tudo começou em 2011, quando ele, educador físico de formação, passou a dar oficinas de capoeira para profissionais que trabalham com terapia ocupacional. Em 2013, surgiu o convite para levar a oficina para o Caps.

"Eu não tinha noção de como era. Tanto é que trouxe minha mulher e meu filho da primeira vez que eu vim. Foi muito forte. Pensei: 'Eu não tô preparado espiritualmente, esse lugar tem uma energia muito forte'", conta.

Mas logo mudou de ideia: "Esse aqui é um lugar mágico", diz, exaltando a quantidade de capoeiristas habilidosos que encontrou por lá.

"Eles me respeitam, porque eu sempre olhei no olho deles", diz. Nas três rodas de capoeira que acompanhou, a reportagem foi questionada mais de uma vez sobre o que fazia ali, e não teve problemas depois de dizer que acompanhava o capoeirista.

"Deixa eu tomar um golinho aqui antes que o mestre veja", diz um usuário enquanto bebe um pouco de cachaça antes de entrar na roda. Baiano não permite o uso de álcool ou outras drogas durante a capoeira –e os usuários não questionam.

O mestre, que não nasceu na Bahia mas cuja família vem de lá, organiza tudo quase sozinho, mas muitas vezes conta com a ajuda de assistentes sociais para organizar a roda. O único apoio que recebe da prefeitura, diz, é poder guardar os instrumentos no Caps.

Para os usuários, a história é muito mais antiga. "Eu não quero tocar, mestre, meu negócio é rodar", diz Robert Erick, 20, que joga capoeira desde os 7, vive há um ano na rua e frequenta o grupo esporadicamente. No encontro com a reportagem, ele puxava cantos pouco conhecidos, orgulhava-se de "ser macumbeiro" e estimulava pessoas a jogarem capoeira com ele.

Já Alex Souza, 26, estava ali pela primeira vez. Foi à cracolândia buscar drogas, viu a roda e resolveu parar. "Eu cheguei a ser sub-mestre, mas fazia dez anos que eu não jogava", diz ele, pequeno, forte e ágil, enquanto sorri.

Dividem a roda da cracolândia, demarcada no chão por um círculo feito de giz, capoeiristas experientes e novatos, sóbrios e sob efeito de drogas. Panda, apelido de outro usuário, ensinava outros participantes a jogar capoeira. "Perna para frente, braço para trás", repetia.

"Olha o que ele vai fazer", diz o mestre enquanto aponta para um homem no meio da roda, que pede passagem, abre caminho e inicia uma sequência de seis saltos-mortais para trás. Só para perto do fluxo –concentração de pessoas onde acontece a venda de drogas– e não volta mais.

Além da capoeira, há na cracolândia uma série de iniciativas para amenizar a dor dos dependentes químicos.

Todas as quintas, assistentes sociais que trabalham ali organizam uma roda de samba –os instrumentos são divididos com os usuários.

Além disso, igrejas e voluntários distribuem roupas e alimentos. Um deles é o aposentado Antônio Camilo, que há cinco meses leva suco ao local. "Eu trazia água e eles não se interessavam muito. Agora trago suco e distribuo até 80 litros sem dificuldade", diz.