Folha de S.Paulo

Nas capitais mais violentas, 42% dos alunos já foram agredidos na escola


Quatro em cada dez estudantes afirmam já terem sofrido violência física ou verbal dentro da escola no último ano. Em 65% dos casos, o agressor foi um colega, mas professores aparecem como autores em 15% dos relatos.

A discriminação social, racial ou por orientação sexual também é uma realidade no ambiente escolar. Quase um terço dos estudantes sofreu esse tipo de agressão.

Os dados fazem parte de uma pesquisa realizada com 6.700 estudantes de escolas públicas das sete capitais brasileiras mais violentas do país: Maceió (AL), Fortaleza (CE), Vitória (ES), Salvador (BA), São Luís (MA), Belém (PA) e Belo Horizonte (MG).

No geral, 42% dos alunos afirmam ter sofrido algum tipo de violência.

O estudo, obtido pela Folha, foi produzido ao longo do ano passado pela Flacso (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), MEC (Ministério da Educação) e OEI (Organização dos Estados Interamericanos) com jovens entre o 6º ano e o ensino médio.

Infográfico: violência em escolas

As capitais escolhidas têm as maiores taxas de homicídio entre jovens, segundo o Mapa da Violência de 2014.

Casos de agressões, ameaças e roubos no entorno da escola são relatados por 84% dos estudantes. Quase 9% tiveram conhecimento de assassinatos na vizinhança no ano passado e cerca de 22% já viram armas, como pistolas e facas dentro da escola.

Além de refletir e reproduzir a realidade do entorno, a escola também produz formas próprias de violência, explica a coordenadora da pesquisa, Miriam Abramovay.

"Uma das principais informações é que as relações sociais são péssimas nas escolas. E quando a cultura escolar é ruim, não há como ter uma boa escola".

A discriminação é outro tema presente entre os alunos. Mais de um quarto dos casos —que atingem, segundo o estudo, 27% dos estudantes— foram motivados pela classe social e pelo lugar onde moram. "Vivemos em uma sociedade elitista, homofóbica e racista, e isso passa pela escola", afirma Miriam.

RELAÇÕES

Para o professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) Paulo Carrano, coordenador do Observatório Jovem, há incompreensão sobre o contexto que gera violência.

"Existe uma imagem estigmatizada de quem provoca a violência, ligada aos jovens pobres, moradores de favelas. Mas não há um polo violento", diz ele. "Quando tenho um problema com alguém, o que existe é uma relação ruim com essa pessoa e vice-versa".

Carrano ressalta que a formação dos professores ainda é deficiente para esse enfrentamento. "Precisamos de uma autoridade que tenha mais diálogo e regras claras."

A pedagoga Márcia Siane, 43, é diretora da Escola Estadual Esther Bandeira Gomes, na periferia de Belém, uma das sorteadas pela pesquisa.

Márcia conta que a realização do estudo —em que os próprios estudantes formaram grupos e aplicaram os questionários— já foi importante para diminuir os conflitos na unidade.

"Em 2014, havia uma outra postura da direção, de não deixar ficar fora da sala. A gente achava que a aglomeração podia gerar violência", diz. "Mas fomos percebendo como a escola é importante para os alunos, eles gostam de estar aqui". Segundo ela, as ocorrências diminuíram com o passar dos meses.

Apesar dos conflitos, 47% dos alunos acham as escolas boas ou ótimas. Outros 38% avaliam como regulares.

CAPACITAÇÃO E PREVENÇÃO

Fortaleza registrou o maior porcentual de ocorrências de violência na escola, segundo os alunos ouvidos na pesquisa realizada pela Flacso, em parceria com MEC e OEI. Na capital cearense, 67% dos estudantes dizem terem sido agredidos no ano passado - a média das sete capitais é de 42%.

As escolas de Fortaleza também lideram quando o assunto é discriminação: 32% dos jovens já sofreram esse tipo de agressão.

A Secretaria da Educação do Estado do Ceará informou que não dispõe de dados consolidados sobre violência nas escolas. Em nota, a pasta cita iniciativas de aproximação da escola com a comunidade, além de projeto em que um professor atua como diretor de uma turma, "acompanhando todo o desempenho escolar desses alunos até o final de sua escolarização".

Em Minas Gerais, 66% dos alunos indicam agressões, a segunda maior incidência. A Secretaria de Educação do Estado informou que terá um programa que inclui capacitações de servidores e ações de prevenção de uso de drogas, entre outras medidas. A pasta planeja promete criar um sistema para o registro dos casos de violência pelas escolas, inclusive do bullying.

Para a secretária de Educação do Estado do Pará, Ana Claudia Hage, o primeiro passo é atuar na formação dos servidores, sobretudo dos diretores. "Mais que o professor, o gestor tem papel primordial porque ele consegue transmitir o sentido de pertencimento", diz. "E por meio de disciplinas de arte, educação física, por exemplo, a gente vem tentando trabalhar as relações interpessoais, que são a fonte dos conflitos".

Haroldo Correia Rocha, secretário de Educação do Espírito Santo, ressalta que o processo educativo não pode se esgotar na escola. "A família tem um papel importante, por isso temos que colocar a família na linha de frente da escola", diz. O governo mantém um programa em que mães recebem formação e atuam como mediadoras nas unidades.

Durante a realização, a pesquisa capacitou professores e envolveu grupos de alunos na produção e coleta de dados. "Isso resultou em um diagnóstico participativo que vai ser muito útil para as escolas e secretarias", diz a coordenadora, Miriam Abramovay.

O governo do Maranhão citou a própria capacitação de mediadores realizada pela pesquisa como ação na área de prevenção de conflitos. A Secretaria de Educação de Alagoas informou que mantém parcerias para tratar o problema. Uma delas, com o Tribunal de Justiça, garantiu a criação de um Núcleo de Conciliação e Mediação de Conflitos que desenvolve ações na comunidade e organiza cursos para os professores.

Também questionada pela Folha, a Secretaria da Educação do Estado da Bahia informou que não tem registro significativo de violência nas escolas públicas.

"A Secretaria vem combatendo uma atitude intolerante e até racista de determinados segmentos da sociedade que tentam imputar o estigma de violência a mais de 900 mil estudantes (a maioria pobre e afrodescendente, filhos e filhas de trabalhadores) que estudam nas escolas públicas estaduais", afirma em nota.

O MEC (Ministério da Educação), que encomendou a pesquisa, ressaltou que trabalha no enfrentamento à violência nas escolas há anos. "É preciso destacar que a prevenção à violência nas escolas deve se dar de forma continuada, transversal e integrada, sem reforçar discursos e práticas que criminalizem o ambiente escolar", afirma nota da pasta.

Entre as ações citadas, estão a publicação das Diretrizes Nacionais para Educação em Direitos Humanos, de 2012, e o Programa Escola que Protege, que já distribuiu 45 mil kits educativos às escolas e financiou 5,3 mil formações entre 2012 e 2014.