Folha de S.Paulo

Escolas se antecipam à reforma do ensino médio e customizam formação


Um dos pontos principais da reforma do ensino médio, proposta via medida provisória em setembro de 2016 e sancionada pelo presidente Michel Temer em fevereiro, exige que ao menos 40% da carga horária total deste ciclo seja preenchida por disciplinas de interesse do aluno.

O estudante poderá eleger o que prefere entre cinco percursos: linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica e profissional.

A mudança deve entrar em vigor um ano depois da finalização da Base Nacional Comum Curricular, documento que trata exatamente dos outros 60%, ou seja, das disciplinas que deverão ser cursadas por todos os alunos.

Hoje, o MEC (Ministério da Educação) trabalha na versão final da base curricular, que deve ser enviada para aprovação do Conselho Nacional de Educação até o fim do ano. O conselho a discutirá usando até mesmo audiências públicas e pode alterar alguns pontos do texto, antes de sua homologação pelo Ministério. A previsão é que a reforma chegue de fato às escolas apenas em 2019.

Colégios de São Paulo, entretanto, têm se adiantado e já oferecem formação "customizada" –com cada um dos alunos escolhendo uma parte de seu currículo.

Para se formar no colegial da escola Móbile, na zona sul de São Paulo, os garotos têm de escolher, ao longo dos três anos, sete matérias eletivas, ofertadas no contraturno (fora do período regular das aulas). O estudante pode optar entre aprofundar seu conhecimento em matérias regulares, com temas que não são abordados nas aulas normais, ou cursar outras, como teatro ou robótica.

Vivian Mantovani, vice-diretora de ensino médio da escola, diz que os estudantes aprovam esse sistema. "Eles se sentem individualizados com as aulas, e isso ajuda na escolha profissional. Cursando as eletivas, muitos percebem que realmente gostam de um tema ou que, na verdade, não gostam, e então mudam sua estratégia", diz.

Giselle Corujas, do segundo ano do ensino médio do Móbile, conta que pensava em prestar biomedicina no futuro, mas acabou se inclinando para carreira acadêmica de direito. As matérias eletivas a ajudaram nisso.

"Descobri que gosto de debate, de pesquisar, por isso pensei mais em direito." Na eletiva de história, a turma discute "personagens esquecidos", conteúdo que os colegas não têm na aula regular da disciplina. Giselle pesquisa sobre a quilombola baiana Zeferina.

Ela também faz as eletivas de espanhol, por achar que conhecimento de idiomas é importante para quem quer atuar no magistério, e biologia, já que ainda vê biomedicina como segunda opção.

No ano que vem, de vestibular, ela comporá o resto de seu currículo de acordo com o que puder auxiliar no exame: matemática, matéria na qual tem dificuldades, e filosofia, pois considera que a ajudará na redação.