Folha de S.Paulo

Novo modelo de ensino médio deve alinhar país com sistemas estrangeiros


Um dos argumentos dos que defendem a reforma do ensino médio é que ela alinha o currículo brasileiro a experiências internacionais. Isso porque prevê que o aluno possa escolher, segundo seu interesse, uma área de formação entre as cinco previstas.

Para quem tem condições de arcar com os custos, um intercâmbio pode ser a chance de conhecer esse outro modelo de currículo. Gabriel Lucena de Mattos, 16, cursou o primeiro semestre do ensino médio na cidade de Ushuaia, na vizinha Argentina.

Conta que lá, nos três últimos anos do colégio, o curso é orientado. Ele estudou economia, mas a escola também oferecia ciências sociais e ciências da natureza. "Dei sorte de ter caído numa escola que tinha um curso com o qual me identifico, porque, depois que você escolhe, não pode mais mudar. Então, se não gostar, vai ter que ficar com ele pelos três anos", diz. Agora, pretende prestar vestibular para economia.

Gabriel, aluno de escola pública no Brasil, conseguiu uma das poucas bolsas com tudo pago para esse tipo de programa. Entidades especializadas cobram em torno de US$ 10 mil (R$ 31,2 mil) pelo curso, valor que pode variar dependendo do lugar e do tempo de permanência.

Especialistas concordam que a tendência é não ter mais um caminho único para o aprendizado. Fazem, porém, duas ressalvas à reforma brasileira: a primeira diz respeito ao fato de que ainda não há um detalhamento de como ela será implantada; a segunda, a de que existem pontos mais sérios a serem tratados na reforma do que o alinhamento internacional.

Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, explica que vários países têm trajetórias flexíveis que permitem aos jovens escolher caminhos distintos. "Há um certo consenso de que ter um caminho único torna mais difícil ter um aprendizado orientado por competências e também acaba gerando desinteresse por parte dos alunos", afirma. "Não existe uma receita de bolo, o que vemos no aprendizado é que costuma ter uma base comum e uma trajetória a ser escolhida, mas nós não temos a base ainda." Henriques se refere à Base Nacional Comum Curricular, documento do Ministério da Educação que deverá definir quais serão os conteúdos comuns a todas as trajetórias.

Simon Schwartzman, sociólogo e pesquisador do Iets (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade), considera que a reforma é um avanço. "Não existe no mundo sistema parecido com o brasileiro antes da reforma", destaca. "O sistema europeu permite diferentes trilhas no ensino médio e, nesse sentido, a reforma nos aproxima desse sistema. A diferença é que, na Europa, isso é feito em redes de ensino diferentes, enquanto aqui a proposta não é essa. O sistema americano não tem redes separadas, mas é mais flexível."

Já Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação e professor de filosofia da USP, avalia que, com 13 disciplinas, uma reforma era necessária, mas considera que existem outros pontos mais importantes que o alinhamento aos currículos internacionais. Um deles é que não há nenhuma garantia de que será oferecida ao aluno mais de uma opção.

"Para isso, a escola teria que ter pelo menos uns 300 alunos nos três anos do ensino médio, mas muitos municípios brasileiros têm menos de 5.000 habitantes, então não vão chegar a esse número. Os municípios com menor população não terão como fornecer as diversas opções", diz o ex-ministro.

EXPERIÊNCIAS INTERNACIONAIS

ARGENTINA
(escuela secundaria)
Início a partir dos 13 anos
Duração 5 anos
13 disciplinas espanhol, matemática, biologia, química, física, história, geografia, educação cidadã, língua estrangeira, geografia, artes, educação tecnológica.

É divida por um ciclo básico e outro orientado, conforme a área escolhida. O país também discute uma reforma no ensino

CANADÁ
(high school)
Início a partir dos 15 anos
Duração 4 anos (5 anos em Québec)
9 disciplinas (inglês, matemática, física, química, história, geografia, biologia, educação física e língua estrangeira)

Nos dois primeiros anos, o aluno faz as matérias obrigatórias. Depois, escolhe as eletivas, inclusive o nível de dificuldade

CHILE
(escuela secundaria)
Início A partir dos 14 anos
Duração 4 anos
11 disciplinas espanhol, matemática, biologia, química, física, história, geografia, inglês, educação física, filosofia e artes.

Tem um currículo bastante parecido ao atual ensino médio brasileiro. Há ainda a modalidade de ensino técnico

ESTADOS UNIDOS
(high school)
Início a partir dos 14 anos
Duração 4 anos
7 disciplinas inglês, matemática, história, geografia e economia, educação física e língua estrangeira

Além das matérias obrigatórias, possui disciplinas eletivas que somam créditos para concluir o ensino médio e entrar na universidade

REINO UNIDO
(high school)
Início A partir dos 15 anos
Duração 4 anos
12 disciplinas inglês, matemática, ciências, história, geografia, língua estrangeira, tecnologia, artes, música, cidadania, educação física e computação. Nos dois primeiros anos, todas são obrigatórias -depois, só inglês, matemática e ciências, e as outras passam a ser eletivas