Folha de S.Paulo

Colégios já obrigam estudante a optar por matéria de preferência


O colégio paulistano Lourenço Castanho trabalha com o sistema de "oferta formativa ampliada", no qual alunos escolhem matérias divididas em áreas do conhecimento, o que vai ao encontro da reforma do ensino médio.

As opções mudam a cada semestre. Nesse último, era possível escolher desde gastronomia até cultura árabe.

"São componentes curriculares para que o aluno exercite sua possibilidade de escolha e construa suas preferências temáticas e acadêmicas", diz Fábia Antunes, diretora de currículo.

Entre o primeiro e o segundo ano do ciclo, os jovens são obrigados a escolher ao menos uma matéria eletiva, que dura um semestre.

Alexia Saddi, do segundo ano, afirma que sempre quis fazer engenharia e viu na oficina "construção de materiais para o estudo da física" uma chance de desenvolver suas competências numa matéria que sempre gostou.

Hoje ela conta que desenvolve, com uma colega, um protótipo para transformar energia solar em elétrica.

"Essa oficina tem me ajudado a ver a realidade com a qual vou trabalhar. Encaixou com o meu perfil", diz.

Em outros colégios, os currículos serão alterados a partir do ano que vem, caso do Dante Alighieri, que já oferece uma série de cursos, mas de forma extracurricular.

"Agora haverá sistematização. O aluno deverá ter esse percurso durante o semestre", conta a diretora geral, Silvana Leporace.

Estudantes do primeiro e do segundo ano do ensino médio terão de escolher três opções de aulas eletivas. "A gente quer que o currículo não seja tão segmentado, para o aluno ter escolhas e experimentar coisas pelas quais tem interesse", diz Leporace.

Ela afirma, porém, que, apesar da mudança no ensino médio, vestibular e Enem continuam no formato "extremamente conteudista", e que é papel da escola preparar os jovens para as provas.

No Bandeirantes, o currículo mudará em 2018. Os professores foram instados a construir eletivas de forma interdisciplinar. As novas opções serão apresentadas na primeira semana de outubro.

"A ideia é permitir que os alunos escolham, em consonância com o que o ensino médio novo pede", diz Mayra Lora, diretora pedagógica.

Alunos do segundo ano terão de escolher duas eletivas, e os do terceiro, quatro.

A escola aboliu a divisão por área de conhecimento. Antes, os alunos escolhiam entre exatas, humanas ou biológicas e eram agrupados conforme as notas. "É eficiente, mas não é a educação do século 21, que demanda um cidadão que trabalhe de forma colaborativa. Seria contraditório ter um sistema tão meritocrático, é preciso estimular a colaboração", diz Mauro Salles Aguiar, diretor-presidente do Bandeirantes.

O Consed, órgão que reúne os secretários estaduais de educação, responsáveis diretos pela implantação da reforma nos Estados, avalia que a mudança está estancada, e que precisa de respostas para avançar. Antonio Ildivan de Lima Alencar, presidente do órgão, questiona alguns pontos, como a não obrigação de os colégios oferecerem número mínimo de percursos, que fica a cargo das redes.

"Se a reforma diz que as escolas não precisam oferecer no mínimo um dos percursos, será que o aluno tem mesmo oportunidade de escolha?", diz, lembrando que há Estados onde 50% dos municípios têm só uma escola.

Rossieli Soares, secretário de educação básica do MEC, diz que a a etapa de implementação da reforma dependerá muito dos sistemas estaduais. "Quem constrói isso é a escola, junto com a rede e a secretaria estadual, levando em conta o conteúdo local."

Soares afirma que o ministério está disposto a ouvir o Consed. "A implementação não tem como ser feita sem a participação dele e dos conselhos estaduais."